O estranho caso da praga das couves

couves oídio

Como toda a gente sabe, a agricultura é farta em pragas e bicharada. Quando menos se espera, lá vem um ataque de formigas, uma nuvem de pulgões, uma tonelada de lagartas coloridas, escaravelhos feiosos, fungos cujo nome científico até parece coisa pequenina e fofinha, provavelmente comestível, ou uma bíblica invasão de gafanhotos.
Na minha curtíssima carreira de agricultor de sofá, ainda não me tinha dado conta de que estas coisas não acontecem apenas aos outros e, entre estes, àqueles que insistem em alagar as culturas de produtos tóxicos, fazendo assim perigar o fino e frágil equilíbrio ambiental. Não, estas coisas não acontecem apenas aos outros. Aconteceu-me a mim também. Pois que a minha riquíssima e digna de orgulho plantação de couves pencas, as tais 42, foi atacada ferozmente por uma bicharada que lhes deixa as folhas com manchas brancas e bolorentas. Preparando-me para uma luta sem tréguas nem quartel, muni-me da minha arma ultra-secreta de pesquisa de informação: o Google. Tracei o diagnóstico rapidamente, e com a mesma precisão com que um chefe japonês prepara fugu: tratava-se, indubitavelmente, de ferrugem branca! E que vem a ser ferrugem branca? Ainda de acordo com a minha arma de informação mais do que secreta, a ferrugem branca é um nome genérico dado a uma quantidade inespecífica de fungos que ataca as plantas, nomeadamente as couves, provocando-lhe os sintomas que se poderiam observar nas folhas das minhas pencas. Dizia-se também algures que a melhor forma de combater a malíssima ferrugem branca seria retirar o material infectado do lugar, arrancando folhas atacadas, evitando assim que os esporos voem para mais couves. Além disso, era também aconselhado que se fizesse rotação de culturas. Ou seja, por uns tempos não mais aquele pedaço de terrenos agrícola teria pés de couves plantados. Enfartado de conhecimento teórico e ansioso para colocá-lo em prática como um entusiástico recém-licenciado, dirigi-me à horta e arranquei as folhas infectadas, colocando-as num saco que deixei no lixo. Porém, para que dúvidas não persistissem em relação ao sapiente diagnóstico e subsequente praxis agrícola, dirigi-me aos meus amigos da Sograpa, e perguntei-lhes o que achavam. Através das imagens, disseram tratar-se de mosca branca. Ora, eu não tinha visto mosca alguma e por isso duvidei dessa possibilidade. Perguntei se ajudaria verem mesmo uma couve. Fui buscar uma folha de couve e mostrei. Através de uma lupa, a minha folhinha foi vistoriada por quem de respeito e o diagnóstico alterou-se. Oídio. Isso mesmo, oídio. Feliz estaria que o diagnóstico fora Ovídio porque, julgo, uma plantação de couves algo terá de poético. Porém, com a ablação da letra "v", tudo se torna mais sinistro e negro. À cabeça chegam-nos folhas e folhas, vinhas inteiras gritando de desespero porque um manto negro as cobre de dor. Sim, já antes ouvira falar de oídio nas videiras e nas batatas; oídio em couve é praga de outra ordem, uma novidade para mim. Explicaram-me também que este problema costuma aparecer quando as plantações são regadas via aérea. Lá está. A avó da S. gosta de pegar na mangueira e lançar uns chuviscos, como diz, para regar.  Mistério resolvido. Recomendaram-me enxofre e pelo caminho ainda comprei um bidãozinho com um aspersor. Li também algures, via Google, que a agricultura biológica admite a utilização de enxofre. Ainda bem. Enxofradas foram as couves. Agora esperemos que a saúde volte às combalidas couves pencas. A todas as 42.

couves com oídio


10 comentários:

  1. Espero que resulte, conheço a sensação e a adrenalina desse combate eh eh
    Tenho uma pequeníssima horta, com alfaces, couve galega, couve portuguesa, pimentos, abóbora e pepino
    Um abraço, de agricultor de bancada para agricultor de sofá!

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  2. Uma horta com tantas coisas boas não pode ser pequeníssima. Abraço.

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  3. e chã de urtiga? Já ouviram falar? Para mosca branca não sei, mas com pulgões é bastante eficaz. O dito chã, não é mais que mergulhar urtigas em água fria durante uns dias até ficarem com uma cor escura, quase preta e um pestilento cheirinho a bostas várias. Depois é só filtrar a "infusão" e aplicar diluída (costumo usar entre 30 a 50%)ou em casos mais graves sem diluição. O "snife" da cura permanece cerca de 24 horas.

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  4. O que mais gostei foi do texto. Também estou sofrendo com isso mas vejo que um texto legal nos faz esquecer dos problemas, inclusive dos relatados no próprio texti. Aconselho a escrever mais sobre qualquer coisa.

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  5. O que mais gostei foi do texto. Também estou sofrendo com isso mas vejo que um texto legal nos faz esquecer dos problemas, inclusive dos relatados no próprio texti. Aconselho a escrever mais sobre qualquer coisa.

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