Horta de inverno

Tenho semeado agora pelo frio muitas coisas, muitos legumes, muitas hortaliças. Dá pena sabê-los tiritando de frio. Vestissem gorros e luvas nas mãos de legumes e estariam mais quentinhos. De noite nem quero saber como o farão. Talvez se juntem uns aos outros, infantes, juvenis, bebés, e soprem para os corpinhos nus uns dos outros. São cenouras pequeninas, nada alaranjando ainda para dentro da terra, ervilhas frágeis e tímidas, favas mais valentes na fala do que nos gestos, alfaces roxinhas transpirando frio, rúculas que se esconderam na terra funda, nabiças portuguesas rijas como o granito e inabaláveis como dez montanhas e nabos tontos tremendo o queixo. Pouco crescem. O sol não ajuda. Quando começarem as geadas nem sei se aguentarão. Por agora, a horta parece um infantário de terra, canteiro ali, canteiro acolá.
Julgo ter erradicado para já a praga inapropriada de caracóis que quase me levou à loucura. Mas eles voltam. Talvez outros. E às tantas trazem amigos e parentela alargada. O verão de São Martinho ajudou a afastá-los. A malta dos corninhos não gosta de sol. Os que encontrei estavam debaixo de folhas. Como os vampiros, o luz solar faz-lhe mal. Mal a chuva recomece, temo, eles voltarão. Às armas. Mas só nessa altura. Não há urgência numa horta de inverno. Tudo cresce muito lentamente, e até as pragas, como os caracóis, são lentas. 
Ainda assim, é possível semear e plantar bastantes coisas numa horta de inverno. Eis o que tenho na terra: couve penca (umas pequeninas e outras grande, umas 30 ao todo), 8 couves lombardas pequenas, 8 repolhos pequenos, 8 couves flor pequenas, 8 couves coração pequenas, 8 brócolos espigadotes, 8 regos de favas em diferentes estágios de crescimento, 5 regos de ervilhas em diferentes estágios de crescimento, cenouras bebés, nabos ainda pequeninos, alfaces bebés, nabiças bebés, nabos greleiros por germinar, rúcula por germinar, espinafres por germinar, couves galegas com folhas largas como as orelhas dos elefantes, pimentos resistentes como tudo e todas as ervas aromáticas. Ontem também plantei um mirtilo comprado no supermercado. Ficou no canteiro das ervas aromáticas, um lugar bastante digno. E é esta a minha horta de inverno. Lendo isto tudo não parece coisa pouca. E não é.

Cenouras bebés
Nabos

Alfaces de inverno juvenis

Nabiças portuguesas

Felizmente, temos rabanetes

Os rabanetes avermelharam para fora da terra e estão prontos para serem colhidos, ou pelo menos alguns deles. Nunca tinha provado nenhum rabanete. Estreei-me com um semeado por mim, o que é sempre maravilhoso. Não lhe sabia do sabor picante. Surpreende. Uma coisinha assim delicada e pica na língua. Uma pequena preciosidade da horta. Meio nabo, meia malagueta. Bom, não tão picante assim. 
Não desbatei o que foi nascendo, deixei crescer como semeado. Como brotam da terra desirmanadamente, colherei à medida que crescem. Diz que é para saladas e isso. Eu achei piada, e dá uma cor que vai faltando na horta; agora só por lá vegetam novidades verdes. Felizmente, temos rabanetes. Além disso, parece que dá para semear todo o ano. Mas é preciso cuidado, já por lá vi um mordido pela bicharada. Vai-se a ver e também gostam e é uma chatice. espero que lhes pique na língua, ou lá o que é aquilo que eles lhe têm no lugar.

rabanetes

rabanete

rabanetes


Visitantes da horta - a lagarta do orégão

Encontrei esta desinfeliz lagarta a passear-se nos orégãos. Aquele vermelho quase grita: "mete-te comigo que vais ver o que te acontece!". Talvez seja fanfarronice, não sei. Percebo ainda menos desta bicharada do que de alfaces, couves, nabos, tomates e tudo o resto que cresce na horta, e por isso prefiro deixar esta malta bem sossegada, não me meto com eles e eles não se metem comigo. Mas dá uma valente imagem, caramba!

Cameleira com fundo de céu novembrino

In strictu sensu, como diria quem nas latinarias em gnose abunda, esta senhora não pertence à horta. Plantada em zona nobre do terreno, goza de sol todo o ano, recebe com facilidade água nas raízes e ainda abriga uma quanta passarada barulhenta. É a árvore mais mimada das bandas. Gorda como só ela, abre displicentemente as suas pétalas brancas por alturas destas. Há quem lhe chame japoneira, eu prefiro-a cameleira; afinal, dos seus ramos brotam camélias e não japonélias ou japões, se é que este raciocínio colhe pingo de racionalidade. Não lhe fantasio uma origem asiática. Sempre as vi por aí, e não como árvore ou arbusto de olhos em bico. Havia uma cameleira junto da casa onde vivi até aos meus 6 anos. Ao contrário desta, as suas flores eram vermelhas como sangue, parecendo o manto de pétalas que a certa altura se estendia a seus pés uma funda poça de sangue. Ao contrário desta, a cameleira da minha infância crescia e dormia à sombra, num quadrado ridículo de terra e rodeada por paredes altas. Talvez fosse por causa disso que tanto sangrasse. Não esta. Esta cameleira é coquete, tonta, delirante, veste branco como devem vestir-se as virgens. Pretenciosa mademoiselle. Quando celebrar o centenário vestirá veludo e rendinhas brancas  nos punhos, no cabelo um longalvo laço, ao peito uma camélia branca como a nuvem primaveril.


Visitantes da horta - as aranhas

Eu não sou o maior fã do mundo das aranhas. Causam-me uma certa impressão, vá. Aquilo mexe muito, tem muitas patas, e nunca sabemos se é uma das más ou não. Aliás, para mim só existem dois tipos de aranhas boas, as que estão a quilómetros de distância e as que estão esmagadas. Lamento, amantes das aranhas; nesse clube não me inscrevo. E eu não tenho medo da bicharada. Quero dizer, mantenho com eles, ou pelos menos com a maior parte deles uma relação bastante saudável: fiquem no vosso cantinho que eu fico no meu. As aranhas repugnam-me, pronto. Vá lá saber-se se aquilo tem veneno ou não. Eu não as conheço, e nem sei se existe por aí alguma espécie venenosa. Estas raparigas cheias de pernas andam por todo o lado. Na horta, também. Por estes dias, andei a catar umas ervas não convidadas do meu cantinho das aromáticas e começaram a saltar do meio da folhagem uma família deles. Consegui identificar a mãe, o pai, as 10 crianças, 2 tios da parte da mãe, 3 tias da parte do pai (ainda levavam rolos no cabelo), os avós maternos, os avós paternos (muito simpáticos, por sinal), e mais uma quanta parentela que não identifiquei. Uma festa. Em pouco tempo, debandou tudo. Ide festejar para outro lado. Esta aranha que fotografei é a tia Armanda. Solteira convicta, gosta de comédias românticas e sonha com o príncipe encantado. Não resistiu a ser fotografada.

horta aranha

(Nota: se a S. lê este post nunca mais vai à horta. Tarde demais.)

Diz que são cenouras

Estas plantinhas são cenouras. Espero que sejam cenouras. Terei de esperar um pouco para ter a certeza. Pelo menos, foi ali que as semeei. Cenouras "Nantes melhorada", é o que diz o pacotinho. Não tenho grandes esperanças nesta sementeira, a terra parece excessivamente pesada para estas meninas, não deve permitir que alarguem muito. Mas que percebo eu disso? Nada. Também nunca vi quem as semeasse, portanto não tenho a mínima referência de como isto será. A terra tem paciência. E eu também. Lá mais para a frente, terei de desbastar o canteiro, senão ainda se atropelam umas às outras e nenhuma cresce dignamente.


As meninas chicórias

Estas meninas da fotografia são as chicórias. Cresceram durante muito tempo num vaso que tenho na varanda e só agora as transplantei para a horta. Foram como aquelas pessoas que entram pela quarentena de anos e só por essa altura resolvem sair de casa e começar uma vida independente. Por demasiado tempo, cresceram e viveram por ali. Nem sei desde quando. 

chicória

A ervilha em cama de estrume e as ervilheiras já nascidas

Esta é a segunda leva de ervilhas que semeio. Como da primeira vez, faço o processo de sementeira em rego mais simples que conheço: abro um rego, espalho um pouco de estrume, espalho a semente com um intervalo de 20 centímetros, cubro o rego. Não deve ser processo tão palerma quanto isso. Tem funcionado para já, e as pequenas ervilheiras nascidas olham de espanto para este céu sombrio de Novembro.

estrume ervilha