Abertura de concurso para a contratação de 2 girinos

Faço avisar que, por período determinado, uma semana ou assim, está aberto o concurso para a contratação de 2 girinos com experiência, ou não, na arte de girinar. Não se oferece qualquer tipo de regalia a não ser os exclusivos atinentes às funções em apreço, incluindo água fresquinha em doses moderadas provinda do poço, e toda a mais que nuvens queiram dispensar, vistas desafogadas de ruído civilizacional excessivo e, por companhia, pacatas plantas que outra coisa não fazem que dançar ao som do vento e conversar sobre pardais, verdilhões e escassas rolas ou pombas poisadas nos fios eléctricos. A abertura do presente, e já sabido, concurso está diretamente relacionada com a transformação de um outrora canto de aromáticas num sereno pedacinho lacustre, como pode ser verificado pela imagem que se anexa. Faz-se ainda saber que poderão ser considerados opositores ao concurso, ou lá como se diz, todos os que reúnam características morfológicas e atitudinais compatíveis com as de um girino, a comprovar na presença de biólogo ou um outro especialista em anfíbios, caso seja necessário. As candidaturas deverão ser efectuadas por correio electrónico, para o endereço ahortaeacidade@gmail.com, acompanhadas de fotografia de rosto e uma descrição da experiência prévia relevante, caso exista. Serão seleccionados os 2 candidatos que melhor souberem girinar perante um júri composto por este que vos escreve e por uma ou outra pessoa que perceba do assunto.




O raio dos pimentos estão tão feios como os feios

Não sei a quem eles saem, se calhar os pais também não eram nada bonitos. E nem é que vá participar em concursos de beleza para pimentos. Mas caramba. A minha horta deste ano está carregadinha de frutos anormais. É tão inexplicável como o pântano político deste rectângulo, que tem tanto de ridículo como de abençoado. Estou a precisar de férias desta malta estranha. Ou então pastoreio um rebanho no meio da horta. Ainda se assustavam com as beringelas e perdiam o pêlo. É melhor estar quieto. 


2 curgetes, alguns tomates cereja (ou lá o que aquilo é) e um pepino

As curgetes entraram em velocidade de cruzeiro, ou lá como se diz, e não me refiro ao cruzeiro que afundou num destes anos no Mediterrâneo. A cada par de dias aparece uma, meio maluca das coisas da terra, e grita que está ali. Coisinha muito má que plantei foram os tomates cereja. Aquilo veio num vaso muito bonito e parecia mais destinado a marquises do que aos horrores da horta. Assim era. Contavam com o solzinho cândido da manhã, filtrado pelo vidro-fosco-parolo, e apanham com uma torreira de calor e baldadas de água no lugar de um fiozito de água vertido por um regadorzinho cor de rosa (isto leva hífenes?) comprado no Ikea. Conclusão: uma desgraça. O tristes nunca pariram tomate que se visse. Os que vieram foram os que ficaram. Amareleceram e depois avermelharam. Nada mais que isso. Novas folhas? Viste-le-zi-as! Nem uma para amostra. Deve ter sido da decepção. Eu também fiquei desiludido. No ano passado, plantei um pé de tomate cereja e aquilo deu que se fartou. Toneladas e toneladas de tomatinhos. Quilos, pronto. E este ano? Sai-me esta coisa. Não volto a cair na asneira. Não quero mais meninos de estufa na minha horta. A minha horta é só para plantas com barba rija. Também começaram a dar os pimentos padrão. Apanhei uns que aquilo, valha-me Deus, tem um tamanho que assusta. Eu estou habituadinho a pimentinhos, pimentos padrão assim é coisa que desconheço. Ou desconhecia. Quando olhei para eles pensei: alto lá que isto é coisa brava! Afinal não era coisa brava. Pouco picavam. Caramba. No que diz respeito a pimentos padrão eu gosto de desafios. Afinal era só tamanho. Por fim, resta-me falar do coitado do pepino. Pepino. Eu gosto da palavra pepino. Lembra-me o Senhor do Anéis, havia uma personagem com um nome semelhante. Voltando ao pepino. Maravilhoso. Sal e azeite fica-lhe tão bem. Tenho só um pé, uma planta, e tenho para mim que esta semana colho mais. Tem de ser.


Pausa para olhar as hortênsias

Ou hidrângeas. Assim.

hidrângeas

Tomatina. Boa?

Na imagem, a fiada do tomate rama. Se chegar a amadurecer tudo, estou a pensar organizar a primeira tomatina portuguesa. Pelo menos a gente diverte-se e manda uns tomates à cara uns dos outros. E não é desprezo nenhum para o fruto mais nobre da horta. Nada. É até bastante digno. Aliás, caramba, por que razão não temos uma tomatina portuguesa? Onde estão os vossos tomates? É juntá-los todos e festejar!


Socorro, os meus pimentos padrão são desfocados!

E não sei o que lhes faça. A calda bordalesa de nada serve para males de desfocagem. Corri fóruns e blogues, consultei especialistas e curiosos, e ninguém parece ter uma resposta. Não sei se foi da terra, da rega, do tempo ou se nasceram assim. Pode mesmo ser um vírus ou um fungo, não sei. Pode ser que amadureçam um pouco mais e fiquem focados. Pode ser que, Agosto chegado, o sol os mude. Tudo é uma enorme incógnita. O que é certo é que os meus pimentos padrão são desfocados e não sei o que lhes faça. E até estou na dúvida se os colha ou não, caso continuem assim. E se é bicho mau?



Viúvas ao sol

Conheci uma mulher chamada Fernanda. Fernanda Triste. Vivia na soleira da sua porta, ou pelo menos nunca dela arredava pé. Tinha um cão velho chamado Ernesto. Ernesto ressonava quando dormia, e Fernanda com ele. Fernanda vestia preto. Ernesto era branco, embora sujo. Fernanda era viúva. Enviuvou aos 56 anos, morreu-lhe o homem de um ataque fulminante. Caiu para o lado e nunca mais teve levante de vontade própria. Do outro lado da rua, morava Catarina. Catarina Alegre. Pouco uso fazia do nome nas emoções. Mal saía de casa. No entanto, nas manhãs mais serenas de verão e quando o calor inchava o céu, espreitava a rua e suspirava por toda aquela luz e por todo aquele calor. Catarina vestia preto. Enviuvou aos 67 anos, morreu-lhe o homem numa mina de água por falta de ar ou por excesso de água. Tinha um gato chamado Marco. Marco era um gato mau, pouco dado aos afectos humanos. Surpreendentemente, e porque a natureza é pródiga em ironias, o gato Marco enlouquecia com um qualquer nada de açúcar. Lambia-o de olhos fechados e de seguida, tomado por coisas malucas, corria para o cimo da nespereira do quintal onde passava as horas seguintes. Fechava os olhos e sonhava com aquilo que os gatos sonham quando estão felizes. Mais abaixo, morava Amélia. Amélia Cardoso. Não era viúva. Nunca teve homem. Nunca teve namorado conhecido enquanto tal. Era meio tonta. Dizia que era viúva e não era. Não tinha animais de estimação, mas alimentava os gatos e os cães dos vizinhos. Sentava-se à soleira da porta e cantava canções de saudade. Cantava uma canção às 10:30, outra às 11.30 e outra às 14:30. Algumas vezes cantava também durante a madrugada, pelas 3:30, se José Castro ou Joaquim Martins a visitassem para agrados. Vestia preto.
Lembro-me sempre destas personagens, que um dia conheci, quando olho para as minhas beringelas. Guardam dentro do corpo seco uma dor profunda que começou na morte de alguém a quem se ligaram para sempre, ou que começou num outro evento que não sei e lhes veio na nascença. Escondem as flores por entre a folhagem escura, embaraçadas com a sua alegria e com os seus frutos. Quando resolvem finalmente crescer, tornam-se tristes e roxos, como se preparados para serem levados num caixão. Mas não dispensam o sol, usam a sua luz para amplificar a dor e a solidão. 
As minhas beringelas começaram agora o trabalho das flores. Não é fácil descobri-las, mas elas lá estão, bem escondidas, com vergonha das alegrias, como aqui nesta fotografia. Não sei o nome desta beringela. Na minha horta as plantas não têm nomes. Ou têm?

beringela flor