A noz e o silêncio dos pássaros



No terreno onde tratamos de cultivar a horta, existe uma nogueira tão encostada ao muro que quase se confunde com ele. Este ano, as nozes são gordíssimas e oscilam ao vento. Um pequeno aranhiço completa o bucólico quadro. Conseguem descobri-lo?

Cebolinho

Comprámos cebolinho na famosa feira dos Carvalhos, em Gaia. Era uma coisinha pequenina e frágil quando foi para a no nosso cantinho das aromáticas, com um naco de terra agarrada à raiz, e tem estado por ali, no sossego do terreno. É uma daquelas plantas que passa despercebida, esteja de sol ou de nuvens, de chuva ou de canícula, o cebolinho mantém-se erguido com uma dignidade que há poucos. Só lhe sentimos a falta quando esmorece e murcha de forma irreversível. Sei do que falo. Há anos que tenho cebolinho num vaso e nunca se queixou de nada. Um dia, depois de  brutalmente atacado por pulgões, deixou de respirar e afundou-se na terra. A S. gosta muito de utilizar o cebolinho na comida. Eu reformulo: a S. gosta muito de programar utilizar o cebolinho na comida, mas não o usa tanto quanto o programa fazer. 
O cebolinho gosta de ficar ao sol, ou parcialmente à sombra. É semeado no início do inverno e transplantado para o exterior por alturas de maio. Pode ser plantado em filas ou em grupo - os meus estão em grupo -, e gosta de ser fertilizado com composto. Se cortarmos as flores, as folhas tornam-se mais tenras e agradáveis. Se retirarmos regularmente as folhas, novas nascerão. Pode ser colhida até à chegada do outono. Para que a planta sobreviva ao inverno, poderemos desenterrar as plantas e e plantá-las em vasos, de modo a que fiquem protegidas. As folhas são ricas em vitamina C, e por isso deve ser consumido fresco, com muita imaginação, em saladas, omeletes, pratos de carne ou de peixe. Quando seco ou congelado, perde a maior parte das vitaminas. Dizem também que melhora a digestão e reduz a pressão arterial. Enfim, uma pequena maravilha. Experimentem cortá-lo muito miudinho e juntá-lo a queijo creme. O resultado é delicioso.

cebolinho verde
Cebolinho. Por companhia, umas simpáticas invasoras.

Direcção-Geral da Saúde recomenda ervas aromáticas

Se ainda não plantaste as tuas ervas aromáticas na horta, na varanda, no telhado, na lavandaria ou na pia da louça, a Direcção-Geral da Saúde dá-te um incentivo extra, considerando o consumo destas plantas como uma estratégia para a redução do consumo do sal. Sem ninguém esperar, as ervas aromáticas tornaram-se produtos estratégicos para estilos de vida saudáveis. Portanto, caríssimos, está na hora de plantar a salsa, a hortelã, a salva, o tomilho, o aipo, a pimpinela, o orégão, e tantas outras que tornam a comida tão mais saborosa e também mais saudável. Oficialmente. Está tudo aqui explicadinho.

O tomate cereja e a curgete

Depois das alfaces, que têm alimentado as nossas saladas, duas hortícolas se perfilam para a próxima colheita: tomate cereja e curgete. O tomate cereja resulta de um pé que foi oferecido pela Sarita Catita. Já esteve num vaso cá em casa e só mais tarde seguiu para a horta. Aparentemente, o processo não lhe foi muito doloroso porque se abre em folhas e em flores, e agora também mostra orgulhosamente um pequenino tomate verde, mas com ganas de amadurecer. É filho único, por enquanto, o que me parece um pouco estranho, mas desconheço-lhe os segredos para o amadurecimento. Será, provavelmente, apenas a primeira experiência do tomateiro e caso resulte outros frutos se seguirão. Já as abóboras parecem gostar muito daquele terreno, já que crescem livremente e sem plantio vários pés por ali fora, que não sendo cuidados, nem tratados, nem postos ao abrigo de plantas invasoras, lavram a terra como tractores folhosos. Assim são as curgetes. Abriram as enormes folhas verdes e frutificam rapidamente. Calculo que não demorem até chegarem à sopa.

tomate cherry
Tomate cereja verde, mas a caminho de vermelho
courgette
Curgete ainda pequenina

Estacar a horta

Está mais do que na altura de pensar em estacar a horta, e quando falo em estacar a horta falo em estacar principalmente os tomateiros mas também os pimenteiros. Os tomateiros são, claramente, os alvos preferenciais das estacas, porque quando começarem a crescer os frutos (sim, parece que os tomates são frutos) é provável que com o peso aquilo venha tudo por ali abaixo e parta os ramos, e ficamos sem planta e sem tomates. É possível estacar a horta com os mais variados materiais, desde canas, redes penduradas, ramos de algumas árvores, nomeadamente eucalipto, estacas de ferro... O que é importante é que as plantas fiquem bem seguras para que possam resistir ao vento e ao peso do próprio fruto. É também possível utilizar formas "orgânicas" de estacamento. Por exemplo, é bem conhecida a associação entre o milho e o feijão da trepa; crescem harmoniosamente, um sobe aos céus e o outro faz dele uma estaca. Para estes lados, ainda não encontrei canavial a jeito para apanhar umas quantas canas, que é o meu método preferido para o estacamento. Há canaviais junto ao mar, mas  seria muito pouco estético ir para lá de faca em punho cortar canas. Sempre poderia recorrer ao AKI ou ao Leroy Merlin, tenho a certeza que venderão estacas. Mas para quê? Andamos nós a cuidar de ter um estilo de vida saudável e depois compramos estacas em catedrais de consumismo? Não sou radical de estilos de vida saudáveis, nem nada disso; há que usar de alguma ponderação. Mas a ideia surge-me algo despropositada e desnecessária. Portanto, resolvi fazer uma incursão a um matagal aqui perto de casa e procurar alternativas. Um eucaliptal muito mal tratado mostrou-me onde estavam as minhas estacas. Muito silenciosamente, e a ouvir Kanye West nos auscultadores (a figura é, no mínimo, patética), lá fui cortando uns quantos galhos mais novinhos. Já se sabe o que acontece ao eucalipto quando seca, para cortar é um sarilho, mas assim verdinho é uma maravilha, parece manteiga. Cortei 12 estacas, atei-as com uns ramos de videira (100% campestre!) e agora repousam na garagem. Mais logo seguem para a terra. Depois digo como correu e mostro a obra. Sai da frente, Dalí.

eucalipto estacas
Estacas de eucalipto para a horta (deve ser a foto mais patética que alguém algum dia se lembrou de usar num blogue...)
[Atualização]

Tal como previa, estacar os tomates resultou num exercício esteticamente miserável. Mas foi o meu primeiro estacamento, e não há estacamento como o primeiro.

tomates estacar
Estacar tomates. A versão rústica, a única que conheço.

Que planta é esta?

Esta aromática foi-nos oferecida mas o nome ficou para trás. Não sabemos como lhe chamar para que nos ouça. As folhas são acinzentadas e as flores, pequeninas, amarelas. Uma coisa já percebemos, é uma sobrevivente. Enquanto as companheiras transplantadas no mesmo dia para o cantinho das aromáticas lutam pela vida, ela abre as suas folhas em todo o esplendor. E atreve-se a florir assim.



O verão chegou

Hoje foi o primeiro dia de verão. Ainda é. Dizem que terá sido no dia 21 mas eu desconfio. As estações chegam quando muito bem lhes apetece, não querem saber de obediências cegas a mapas ou calendários. O verão chegou hoje, e com ele chegou um calor imenso, maior do que aquele que se suporta passeando pela rua, maior do que aquele que se suporta na horta. Em alturas assim, tratar a horta é um exercício nocturno, meio clandestino, meio à lua, meio assombrado. Ou então, logo pela madrugada, mal o sol se dá ao céu, e ainda as estrelas embalam as árvores. Regar, regar, regar. Tudo o que há a fazer é regar, e sentir escorrer por entre os dedos a água apaziguadora. Haja lua, haja luz do luar. E haja lua. E está tudo bem.

Visitantes da horta #3

Não há batatal sem escaravelho da batata. Esta é uma verdade pura e dura. Podem dar as voltas que quiseram, semear batatas onde quer que seja; é impossível escapar ao escaravelho. De onde virá este bicho? Aparentemente, esconde-se nos interstícios da terra e aparece quando lhe cheira a batatas. Outros nem se escondem e vêm, contentemente, a voar de outros batatais. Enfim, do fundo do chão, da ponta de uma nuvem, logo que lhe cheire a batata, este menino vermelho cedo se anuncia com uma fome voraz, e não havendo cuidados poucas folhas lhe escapam. Não tenho batatas na horta, mas à custa de umas quantas sementes que terão ficado na terra de culturas anteriores, as batatas lá ergueram os braços ao céu e com elas vieram os inevitáveis escaravelhos. Neste momento, cada batateira parece um jardim infantil onde os infantes, sob a forma de larva, roem ferozmente qualquer pedacinho de folha. Tenho memórias muito precoces destes bichos nos batatais que os meus pais semeavam, ali para os lados da Alfareira, em Coimbra. Lembro-me que eram, e ainda o serão por certo, o terror das batatas; primeiro sob a forma de uma larva vermelha e mais tarde sob a forma de escaravelho propriamente dito, alaranjado às riscas brancas. Lembro-me que sulfatar as batatas era absolutamente essencial para que as plantas lhes sobrevivessem. Era um combate sem quartéis. Há coisas que não mudam, e o escaravelho da batata continua por aí, a avivar memórias, a roer as folhas das batatas, alarvemente vermelhos como só eles conseguem ser.

Larva de escaravelho da batata sorrindo para a fotografia
Larva de escaravelho da batata. Enfim, de elegância não padece o bicho...

Beldroegas?

baldroegas

Será isto as beldroegas de que se ouve falar por aí, as tais que são para a sopa, para as feridas e para as maleitas? Estas meninas abundam pela horta, as mais das vezes pequeninas e anémicas, com um ar embaraçado de quem diz "por favor, não me mates". E não é que dá mesmo vontade de a deixar em paz? Será que também transportamos no sangue um gene qualquer que nos liga às plantas e nos avisa para as que podemos usar na sopa? Senhores cientistas, é investigar.

Favas

Demorei muitos anos a descobrir o sabor das favas e a saber apreciá-las como merecem. Lembro-me que a minha avó levava muitas vezes favas para os trabalhadores agrícolas, e apresentava a enorme panela com orgulho, sorrindo à medida que o aroma se misturava a poeira da terra. Lembro-me também do cesto de vime amarelado onde levava prataria e talhares à cabeça, percorrendo com agilidade um caminho de terra batida bastante acidentada. Lembro-me também que tirava o colherão, servia os homens e depois de todos servidos partia a broa e dava um pedaço a cada um. Lembro-me de não gostar nada daquele momento, daqueles panos azuis e brancos estendidos debaixo de uma generosa oliveira, onde as formigas se passeavam procurando restos de comida. E lembro-me do sorriso satisfeito da minha avó, enquanto todos comiam as suas favas com carne e chouriço. Foi um prato que durante toda a vida acompanhou os dotes culinários da minha avó, e sabia-o fazer com uma precisão incomparável. Hoje cozinhei favas com carne e com chouriço para uns amigos e lembrei-me dela. Não cozinhei exatamente a receita que lhe pertencia, porque suspeito que essa se afundou com ela na terra, num triste dia de fevereiro de 2010. A receita que cozinhei foi-me ensinada pela minha mãe, e também é muito boa. No entanto, as favas sempre me trarão o sorriso feliz da minha avó. E será por elas que um destes dias hei de semear favas, quando chegar outubro. A minha amiga Sara já me ensinou a forma correta de preparar sementes de favas para o ano seguinte: as favas deverão secar ainda dentro da vagem. Foi a avó dela que lhe disse. E eu pergunto-me se as favas sempre estarão acompanhadas das memórias das nossas avós.

Favas

A flor do tomateiro

Um dos elementos mais menosprezados numa horta são as flores. A razão é muito simples: uma horta não se destina a cultivar flores nem o seu fruto algum dia será exposto numa jarra com mais ou menos bom gosto. Não. Os produtos da horta deverão ser comestíveis e isso é, julgo eu, absolutamente consensual, e por isso estarão arredados de qualquer apreciação estética.  Quando falamos que uma couve está bonita, não o dizemos com a intenção de lançar luz alguma sobre a natureza do belo. Antes queremos dizer que a couve engordou que chegue para cozer numa panela. Quando apreciamos um tomate vermelho e grande e dizemos que lindo tomate, não o dizemos com a mesmo intenção com que o dizemos quando apreciamos uma obra de Degas - que nunca, segundo sei, pintou tomates ou produtos hortícolas, preterindo-os a bailarinas. Todavia, minhas senhoras e meus senhores, uma horta vale também pela sua estética. E quando olhamos para uma horta, ou para um dos elementos de uma horta, por vezes não podemos se não deixarmo-nos emocionar pelo estacar perfeito dos pimenteiros ou pelos regos simétricos do feijão.
Dizia eu lá no início do texto, antes de me perder em tonterias, que um dos elementos mais menosprezados numa horta são as flores. E vale bem a pena que olhemos para elas, quando mais não seja porque algumas flores de hortícolas são comestíveis, como por exemplo as flores da courgette. Por cá, delas não se faz caso, mas são uma iguaria muito apreciada em terras italianas. Não é essa a flor que trago hoje; hoje trago a flor do tomateiro. Pequena e amarela, a flor do tomateiro é, imagine-se, hermafrodita. O pólen é libertado e recolhido dentro da própria flor, originando a autofecundação. E cá está ela em todo o seu esplendor, autofecundando-se. As coisas que acontecem na minha horta...

flor tomateiro
Flor do tomateiro



As couves e as lagartas

Estava longe de imaginar que plantar e tratar de couves viesse a transformar-se numa epopeia digna de ser cantada no século XXI. Na verdade, continuo bastante longe de pensar tal coisa. As epopeias são para grandes feitos heróicos, não para uma pacata e relativamente anónima plantação de couves pencas. Senão, quem seria o herói? Eu? Apesar de me ter permitido deixar crescer a barba uns anos atrás, e  por mais que ela venha a acinzentar-se, jamais tal fardo me pesará no lombo. Serão as próprias couves as heroínas? Mas como serão as couves heroínas desta fantasiada epopeia se não têm nas suas vestes bainhas onde segurar espadas, punhais ou sabres? Confesso: uma couve vestida é, sem dúvida, uma das imagens mais miseráveis que consegui escrever nos últimos tempos... Deixemo-nos, enfim, de arredondamentos. À falta de heróis para esta apatetada epopeia, candidatos enfileiram-se como pessoas à porta dos centros de empregos para tomarem a vez de vilões. Ou as couves pencas são por excesso apetitosas, e motivo de alvoroço por entre tudo o que se encha de vilania para as comer, ou são por excesso frágeis, cândidas e inocentes, e como donzelas tontas se deixam enganar por tudo o que cante com dois acordes de viola, por mais que a voz desafine e os dedos para guitarradas se mostrem duros como lenhos. Ainda não refeitas da malfeitoria do oídio, como a tempo descrevi, eis que as elegantíssimas couves pencas aparecem comidas por tudo quanto é folha. Furo ali, furo acolá, e ainda outro ali. Temos lagarta nas couves, pensei. Ainda melhor, nem sequer pensei. Se temos couves e se temos furos nas couves, o que mais poderá ser se não lagartas das couves? Portanto, apesar de não ter visto nenhum lagarta, já que as malandras escondem-se durante o dia, apenas atacando durante a noite, o que é bastante enervante, nada mais poderia concluir. Eram as lagartas. Para debelar o problemas, poucas soluções existem: ou andamos durante a noite, de lanterna em punho, à cata das palermas, e vale-nos que não são famosas pela velocidade, ou então temos mesmo de deitar mão a um inseticida e atacá-las durante o sono, ou seja durante o dia. Acontece que não posso catar lagartas durante a noite, afinal não vivo ao lado da horta, nem me parece prático transportar a cama para perto das couves ou vice-versa. Portanto, a solução afigurava-se clara como água: inseticida. Mais uma vez, fui falar com os meus amigos da Sograpa e expliquei-lhe o meu lagartar problema. Em primeiro lugar, sugeriram-me um inseticida "normal". Como lhes pedi algo que não fosse tóxico e acabasse por matar para além das lagartas, receitaram-me um inseticida biológico. O frasquinho chama-se Sequra e é um pó para diluir na água e aspergir sobre as couves. De acordo com a literatura inclusa, o Sequra combate várias pragas: lagartas das couves, lagartas dos tomateiros, lagartas dos morangueiros, bichado da fruta em macieira e pereira, traça dos cachos da videira, traça da oliveira, processionária do pinheiro, limântria do sobreiro e traça da batateira. Depois de aplicar o Sequra nas couves e ao ver escorrer as gotículas nas folhas, dei por mim nostálgico a pensar nas borboletas que nunca iria ver. Cuidar de couves é um exercício de angústia e nostalgia. É doloroso.

couves lagartas
A prova irrefutável de que há lagartas nas couves
enxofre
O meu arsenal para combater as pragas das couves: o bidão com aspersor, sequra e enxofre

Visitantes da horta #2


abelha macho
Zangão

A avó da S. garantiu-me que esta flor onde o tranquilo zangão descansa de procurar a rainha é uma flor do alho. Alho vulgar, entenda-se. O meu conhecimento do alho não é tão profundo que possa, de modo aleatório e desnecessário, questionar tal convicção. Apenas me parece estranho que a planta atinja dimensão assim. Era muito grande. E quando falo grande aponto para uma altura superior a 1 metro. Ora, alguma vez eu vi um alho, um alho vulgar, allium sativum, crescer assim ? Não. Mas há uma primeira vez para tudo.

PS: a vetustíssima Vivicam 3950, que comprei durante uma viagem aos Açores, em 2005, aguenta-se muito bem nas macros.

As couves

Depois do susto com o mais do que provável oídio, as couves  parecem rejuvenescidas. Foi do enxofre com que foram tratadas e muito, julgo eu, desta chuva miudinha que Junho trouxe. Nem memória ou sombra de oídio. Nada.  Assunto resolvido. E parece-me também que cresceram para o dobro numa semana. São 42. E receitas com couve? Nem sei... Para isso, a internet será pródiga quando chegar a altura. Todavia, a S. já confessou não ser grande fã das ditas. Onde vou meter tantas couves? Acho que família e vizinhos vão deliciar-se. Se dantes trazia eu hortícolas da horta dos meus pais, por este andar quer parecer-me que as couves seguirão em direcção a Coimbra. Não me lembro que eles tenham couves por esta altura. Passarão a ter. E que lindas que elas estão. Só de olhar para elas fico de barriga cheia.

couves pencas
Couve penca

Visitantes da horta #1

Joaninha
A Joaninha é uma espécie de cão pastor da horta em forma de inseto. Não afasta os lobos do rebanho, nem ladra quando se aproxima um estranho, mas outros méritos são-lhe reconhecidos. Apesar do aspecto inocente e cândido, as joaninhas são predadoras do mundo dos insetos e alimentam-se de bicharada que não é bem-vinda nos terrenos agrícolas, nomeadamente  afídeos, moscas da fruta, pulgões e piolhos da folha... Por outro lado, como são animais muito sensíveis aos produtos tóxicos agrícolas, a sua presença assinala um ambiente saudável. Encontrei esta senhora joaninha pousada numa planta não hortícola, mesmo ao lado da horta. Já antes as tinha visto pousadas nas alfaces. Sejam bem-vindas.

O estranho caso da praga das couves

couves oídio

Como toda a gente sabe, a agricultura é farta em pragas e bicharada. Quando menos se espera, lá vem um ataque de formigas, uma nuvem de pulgões, uma tonelada de lagartas coloridas, escaravelhos feiosos, fungos cujo nome científico até parece coisa pequenina e fofinha, provavelmente comestível, ou uma bíblica invasão de gafanhotos.

O que "praqui" vai

Se a nossa horta está bem cuidada e bonita, ao Lopes o devo. Tenho-me baldado fortemente (como diz o Markl, fortemente) às lides agrícolas, mas se vos serve de consolo, no sábado vou a um workshop (de que é mesmo, Lopes?). Simplesmente as lides da casa, o trabalho e a maternidade levam-me tanto tempo que alguma coisa tem que sofrer. 
Anyway, haviam de ver a minha lavandaria, está transformada na central dos plásticos. Felizmente, vê-se muita coisa a despontar, inclusivamente as gipsófilas. O Lopes passa lá a vida a espreitar, a regar, a cuidar. Giro de ver, tão dedicado às suas plantas, quase que tenho ciúmes! Desvantagens desta estufa caseira: a terra, man, é só terra. Terra com roupa e cheirinho fresco de detergente não combina. Parece-me que vamos ter que arranjar aqui uma solução de compromisso. Fora isso, é uma alegria que praqui vai.

Fetos em campo agrícola quente

Por estes dias, uma chapada inesperada de calor varreu a horta. O terreno agrícola que exploramos é bastante exposto ao sol, não tem muros muito altos nem árvores que ensombrem as plantas, e por isso tudo o que é luz e calor entra pela terra dentro, secando terreno e folhas. Como não temos disponibilidade suficiente para regar convenientemente todos os dias, embora a avó da S. nos dê uma ajuda preciosa, com os seus salpicos de água, como lhes chama, a desidratação da horta é um risco. Quando misturamos ao sol forte e inesperado uma ventania feroz, como a que aconteceu durante a madrugada e manhã, temos o quadro completo para a desgraça.
Ontem, fui a regas. Não posso dizer que o sol e o vento tenham mutilado muito hortícolas e aromáticas. Todavia, mais um dia e tudo teria condenado à poeira e muitas plantas teriam ido para o céu das plantas, principalmente as últimas couves que plantei, as galegas, que ainda nem tinham pegado e foram apanhadas desprevenidas. Então, uma questão se levanta: como proteger uma horta? Como podemos nós impedir que os elementos estraguem os trabalhos agrícolas? A resposta é simples e directa: provendo sombra e água. Ao regar estamos, obviamente, a prover de água o campo agrícola. Porém, quando a sombra não é de feição e quando não podemos implementar estruturas perenes e muito elaboradas, restam-nos instalações efémeras e rústicas. Tudo se tornou muito simples quando olhei para um campo baldio ao lado e percebi que é fértil em fetos. Os fetos são constituídos por folhas largas e generosas, embora recortadas; ou seja, provendo sombra, são suficientemente permeáveis à luz solar. Logo, são candidatos perfeitos para proteger solo e plantas da desidratação, sem que venham a perturbar o crescimento normal das hortícolas. O resultado final pode parecer um pouco caótico, mas creio que tem, tal como qualquer sistema caótico, uma certa beleza. Ora vejam.

campo de fetos
Campo de fetos

Mesmo depois da rega, nota-se o quão desidratada ficou a terra.
Protecção com fetos. Técnica a precisar de melhoramentos urgentes.




Hortas urbanas #3

hortas urbanas

Sementeiras de Junho

Uma amiga trouxe-nos um presente inestimável, um catálogo de sementes da Casa César Santos,  de Matosinhos. Aquilo é folhear e babar com tanta semente. Da Abóbora Big Max à Acelga Loura Triestina, passando pela Alface Rainha do Gelo e pela Cebola Roxa de Galmi, com um saltinho na Beterraba Bikores e um pé no Nabo Bola de Ouro, é um não acabar de sementes, um verdadeiro manjar de Saturno, deus das sementeiras. Estão catalogadas 18 sementes de espécies diferentes de tomates e 25 sementes de espécies diferentes de alfaces, imagine-se! No fim do catálogo, há ainda uma útil tabela de sementeiras, com vários indicadores tais como o número de sementes por grama, a possibilidade ou não de transplante, a profundidade a que cada semente deve ser plantada, a temperatura ideal do terreno, o espaço entre filas e o espaço entre plantas na fila. Enfim, é quase uma revista erótica mas em versão agrícola. Para além disso, contém também um mui útil calendário de sementeiras. Segundo a Casa César Santos, junho é o mês indicado para semear (prestem atenção):

  • acelga, 
  • agrião, 
  • aipo, 
  • alface, 
  • brócolos, 
  • cenoura, 
  • chicória, 
  • coentros, 
  • courgette, 
  • couve-flo e couves diversas, 
  • endívia, 
  • feijão, 
  • mangerico, 
  • milho doce, 
  • pepino, 
  • rabanete, 
  • salsa,
  • tomate. 


Portanto, caríssimos agricultores, é pegar nos alfobres e enchê-los de sementes. Ai a minha lavandaria...

casa césar santos
Catálogo de sementes
De acordo com o Borda D'Água, que nos últimos tempos mereceu uma inesperada atenção, deverá ser semeado na horta, em viveiro:

  • alface, 
  • alho-porro, 
  • repolho, 
  • couves flor e de Bruzelas, 
  • couve-nabo, 
  • couve-rábano,
  • couve galega. 


Em local definitivo, deve ser semeado:

  • cenoura, 
  • chicória, 
  • nabo, 
  • rabanete, 
  • salsa... 


Deverá também ser continuada a sementeira do feijão para consumo em verde, e deverá ser plantada batata, pimento e tomate.
Melhor é impossível. Boa sementeiras de Junho.

A germinação da chicória

Este blogue corre o sério risco de se vir a transformar num blogue de germinações. Depois de vermos o germinar do manjericão e da germinação do feijão rasteiro riscado, trago-vos a germinação da chicória. Plantada há apenas 2 dias, hoje de manhã fui surpreendido pelos brotos corajosos de chicória que furam a terra. De acordo com a única fonte de informação que encontrei relativa a este assunto, o período de germinação da chicória é de 7 a 10 dias. Não sei o que se passou ao certo, provavelmente um cruzamento feliz de vários eventos - qualidade da semente, temperatura, drenagem, iluminação, fase lunar... -, mas a verdade é que, 2 dias apenas após ter sido semeada numa estufa tosca, a chicória levantou-se para ver a luz do dia. Nunca vi comportamento semelhante noutras sementes, não sei se é frequente ou não... Seja como for, parece-me anormalmente rápido. Habemus chicoriam, eis tudo o que há para dizer.

germinação chicória
Germinação da chicória


Plantar couves galegas

Qualquer cantinho serve para plantar couves galegas. É muito fácil  reconhecê-las, são as que crescem em altura; e é possível que cresçam muito. Segundo dizem os entendidos, têm um período de vida de 2 anos, embora eu pense que possam durar bastante mais tempo. É uma couve multifacetada e que alimenta uma quinta. Com ela faz-se o delicioso caldo verde, alimentam-se coelhos e galinhas, porcos e outros animais de grande porte. Para além disso, são também um manjar para caracóis e borboletas. Ao contrário das outras couves, às galegas vão-se tirando as folhas à medida que se querem utilizar. É uma planta muito resistente ao frio e ao calor. 
A couve galega é, portanto, a mais recente habitante da horta. Foi oferecida pelo pai de uma amiga. Esteve em água durante 2 dias, apenas porque não consegui plantá-la mais cedo, e seguiu para a horta. O sistema de plantação que utilizei foi muito simples, o básico: abrir rego de terra, espalhar um pouco de estrume, colocar as couves - espaçadas entre si por cerca de 20 centímetros -, e fechar o rego com terra. Ainda reguei com alguma água para que a raiz acame devidamente. Convém estar atento às lagartas que possam agarrar-se às folhas tenras, assim como colocar um pouco de adubo daqui a umas semanas. Confesso, já me apetece caldo verde. 

plantar couves galegas
Plantação de couve galega