Nozes, nozes, outono, outono

Uma nogueira. Junto ao muro. E nozes. Tão bom. Nota mental: mesmo que a nogueira não deixe cair as nozes, dar pontapé ou subtil abanão. E as nozes caem. E cuidado com a cabeça.
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Não sei se é de mim, mas as nozes deste ano perdem em sabor para as do ano passado. Mas por muito. Se isto fosse um jogo de futebol, terminaria com um 10 a 0. A nogueira é a mesma. O terreno é o mesmo. A data da apanha é mais coisa menos coisa. O que mudou? Bem, tudo mudou. O mundo mudou. A nogueira, na verdade, mudou. O terreno, na verdade, mudou. As nozes mudaram. E nem vale a pena falar de Filosofia, desenterrar o Parménides e o Heraclito e gente dessa. Tudo mudou. Neste caso, as nozes não mudaram para melhor. Talvez secando um pouco mais. Talvez um pouco mais de sol. Talvez um pouco mais de tempo. Talvez um pouco mais de paciência. E talvez depois um pouco mais de sabor. E talvez um pouco mais de prazer. Nozes. Outono. E era tudo o que queria escrever: nozes e outono. Acabou o texto.



Nabiças, nabiças, caracóis, caracóis

Com este calor diferente de outono, chegam também os caracóis. E as nabiças. E as nabiças nos caracóis. E a raiva que é vê-los por ali. Neste momento, não tenho uma horta, tenho um caracolário, ou lá como se chama aos sítios onde os caracóis moram. Sim, eu sei, farto-me de queixar desta malta dos corninhos. E tenho boas razões para isso. Suspeito que os caracóis de Portugal, e talvez uma boa parte dos caracóis do mundo, nasçam por aquelas bandas. Famílias inteiras de caracóis. Colónias inteiras de caracóis. Raças inteiras de caracóis. Países inteiros de caracóis, falando línguas diferentes, vestindo roupas diferentes, gesticulando de formas diferentes, todos eles habitam a minha horta ou os arrabaldes da minha horta. Raiva. E por mais que os arranque à força, que os tente convencer doutros pastos mais verdes, daqueles mesmo verdinhos onde os miúdos podem brincar de sol a sol, rumorejado por tranquilos e cristalinos riachos de água pura, e onde as árvores, algumas seculares, sombreiam calidamente com sol amigo, nada os parece demover. Nada os afasta das minhas couves... e das minhas nabiças. Nabiças. Este post é sobre nabiças. Estas que mostro na imagem não foram semeadas de forma intencional. Cresceram conforme Deus quis, nascidas de sementes de nabiças do ano passado. Como passou por lá tractor, espalharam-se pelo terreno grande. Portanto, no meio de ervas menos amigas e comestíveis, é vê-las crescerem graúdas e contentes do sol de outono. Ainda só não aprenderam a afastar os caracóis, mas isso é aprendizagem para uns quantos anos, talvez uns milhões. Tenho a convicção que as formas mais evoluídas de nabiças, daquelas que aparecerão daqui a milhões de ano, saberão sacudi-os das suas folhas, ou mesmo assustá-los com gritos de nabiça. À frente, deixemo-nos de fantasias evolucionistas. As nabiças são uma das minhas coisas preferidas da terra. Exceptuando o caldo verde, poucas sopas há que ombreiem com um a sopa de nabiças. Poucas mesmo. E é tão simples. Eu digo como se faz. Eis a minha receita de sopa de nabiça. 2 batatas, 2 cenouras, uma cebola, 1 dente de alho. Coze-se tudo muito bem com águia abundante. Tritura-se tudo com varinha mágica. Juntam-se folhas de nabiças cortadas de forma tosca e deixa-se cozer. Serve-se. E é tudo. O sal, claro, é quanto baste. Pronto, é a minha contribuição culinária. E quem não fizer uma sopa de nabiças no outono é um canguru perneta. Daqueles bem pernetas. Australiano. E pulguento. Perneta e pulguento. Muito pulguento. E muito perneta. Muito mesmo.