Aqui, brevemente, rabanetes

Semear rabanetes é uma brevidade constrangedora. Tão constrangedora que chegamos ao final e perguntamos: só isto? E depois instala-se um vazio na nossa consciência de agricultor. Sim, rabanetes é assim. Simples. Um quase nada. São muitos anos a observar, a aprender, a cultivar saberes, a pesquisar, a construir uma biblioteca imensa de memórias e gestos. Para quê? Para um breve instante. Numa certa perspectiva poética (se é que a poesia aqui entra) semear rabanetes aproxima-nos da dimensão mais profunda de nós próprios.



Passamos anos e anos a pensarmos e a construirmos de nós uma imagem, a lutar contra a imagem que construímos, a erguê-la novamente, a compará-la com a imagem que os outros de nós têm... E é tudo tão simples. Tão simples quanto plantar rabanetes. Bem sei, este arredondamento de letras desnecessário de nada ajuda o benévolo leitor, que já questiona ritmando o joelho: afinal, para quê isto? Para nada. Melhor que tente explicar como ajudei a que este pequeno nada em algo se formasse. Abri um pedacinho de terra, uma brevidade de terra, espelhei sementes e tapei com terra. Tudo muito leve, uns dois ou três centímetros de terra. Afinal, a semente de rabanete é pequena e frágil. Não pode afundar-se muito porque não encontra a saída da terra; não pode ficar muito superficial porque qualquer aragem a varre. Poderia ter espalhado um pouco de composto, os vindouros rabanetes apreciariam. Mas não. Preferi assim. Agora esperemos a chuva paciente. Os rabanetes não têm pressa. E nós também não.

Sem comentários:

Enviar um comentário