As couves e as lagartas

Estava longe de imaginar que plantar e tratar de couves viesse a transformar-se numa epopeia digna de ser cantada no século XXI. Na verdade, continuo bastante longe de pensar tal coisa. As epopeias são para grandes feitos heróicos, não para uma pacata e relativamente anónima plantação de couves pencas. Senão, quem seria o herói? Eu? Apesar de me ter permitido deixar crescer a barba uns anos atrás, e  por mais que ela venha a acinzentar-se, jamais tal fardo me pesará no lombo. Serão as próprias couves as heroínas? Mas como serão as couves heroínas desta fantasiada epopeia se não têm nas suas vestes bainhas onde segurar espadas, punhais ou sabres? Confesso: uma couve vestida é, sem dúvida, uma das imagens mais miseráveis que consegui escrever nos últimos tempos... Deixemo-nos, enfim, de arredondamentos. À falta de heróis para esta apatetada epopeia, candidatos enfileiram-se como pessoas à porta dos centros de empregos para tomarem a vez de vilões. Ou as couves pencas são por excesso apetitosas, e motivo de alvoroço por entre tudo o que se encha de vilania para as comer, ou são por excesso frágeis, cândidas e inocentes, e como donzelas tontas se deixam enganar por tudo o que cante com dois acordes de viola, por mais que a voz desafine e os dedos para guitarradas se mostrem duros como lenhos. Ainda não refeitas da malfeitoria do oídio, como a tempo descrevi, eis que as elegantíssimas couves pencas aparecem comidas por tudo quanto é folha. Furo ali, furo acolá, e ainda outro ali. Temos lagarta nas couves, pensei. Ainda melhor, nem sequer pensei. Se temos couves e se temos furos nas couves, o que mais poderá ser se não lagartas das couves? Portanto, apesar de não ter visto nenhum lagarta, já que as malandras escondem-se durante o dia, apenas atacando durante a noite, o que é bastante enervante, nada mais poderia concluir. Eram as lagartas. Para debelar o problemas, poucas soluções existem: ou andamos durante a noite, de lanterna em punho, à cata das palermas, e vale-nos que não são famosas pela velocidade, ou então temos mesmo de deitar mão a um inseticida e atacá-las durante o sono, ou seja durante o dia. Acontece que não posso catar lagartas durante a noite, afinal não vivo ao lado da horta, nem me parece prático transportar a cama para perto das couves ou vice-versa. Portanto, a solução afigurava-se clara como água: inseticida. Mais uma vez, fui falar com os meus amigos da Sograpa e expliquei-lhe o meu lagartar problema. Em primeiro lugar, sugeriram-me um inseticida "normal". Como lhes pedi algo que não fosse tóxico e acabasse por matar para além das lagartas, receitaram-me um inseticida biológico. O frasquinho chama-se Sequra e é um pó para diluir na água e aspergir sobre as couves. De acordo com a literatura inclusa, o Sequra combate várias pragas: lagartas das couves, lagartas dos tomateiros, lagartas dos morangueiros, bichado da fruta em macieira e pereira, traça dos cachos da videira, traça da oliveira, processionária do pinheiro, limântria do sobreiro e traça da batateira. Depois de aplicar o Sequra nas couves e ao ver escorrer as gotículas nas folhas, dei por mim nostálgico a pensar nas borboletas que nunca iria ver. Cuidar de couves é um exercício de angústia e nostalgia. É doloroso.

couves lagartas
A prova irrefutável de que há lagartas nas couves
enxofre
O meu arsenal para combater as pragas das couves: o bidão com aspersor, sequra e enxofre

5 comentários:

  1. Viva Lopes.
    Parabéns pelo texto, conheço bem a sua epopeia, ehhheh, também passo pelo mesmo, não conhecia esse produto e vou ficar com a referência para passar a utilizar.
    E a mosca branca não tem aí?
    Outra praguinha de que não gosto nada!
    Abraço
    João GOmes

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  2. Olá, João.
    É uma epopeia que não conhecia porque sou marinheiro de primeira água. Sempre julguei as couves como uma planta mais resistente. Calculo que haja muita variação dentro da espécie. Não vejo as couves galegas tão menininhas como as pencas, mas pode ser fantasia minha. E ainda não lhe deu para a mosca branca! Pelo andar da carruagem, temo que seja o próximo apeadeiro.
    Abraço, João.

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  3. Migas ou borboletas... Não é fácil escolher, mas eu, insensatamente bem sei, escolhia as borboletas.

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    1. E se a escolha for migas e borboletas? Confio que alguma das lagartas seja mais esperta e fuja ao que lhe faz mal. Caramba, onde já se viu horta sem borboletas?

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  4. É absolutamente indispensável plantar hortelã entre as couves. A mosca branca passa a habitá-la e deixa as couves em paz. E com a hortelá pode aromatizar alguns cozinhados ou fazer um belo xarope para refrescos de verão.

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