Um dia na horta

A mãe da S. e a sua mãe - não tem como confundir: a minha sogra e a sua mãe -, andaram a cuidados no cemitério, florindo saudades entre campas. Enquanto isso, no lugar onde se celebra a vida das hortaliças, preparei terreno para semear nabiças, sachei e arranquei ervas com as mãos; enfim, compus tudo aquilo que a passagem do tempo cansando vai. 
canteiro
Preparação do canteiro para a sementeira da nabiça
Planeio semear nabiças em breve. Já o terei dito, as nabiças são uma das boas coisas que o inverno nos traz, a contragosto da S., que não se revê em sabor assim, preferindo, por exemplo, filhoses de abóbora menina quando o frio encontra a carne. E esta foi uma falha: não plantei abóbora menina. Tenho por lá umas abóboras, mas não lhes vejo jeito de serem meninas. Quando crescerem, aposto, mostrar-se-ão fulgorosas matronas, daquelas que esperam sentadas no rebate da casa e que conversam contentemente quando o céu de abre em modos e se riem muito das tonterias de um distante parente francês ou brasileiro. Estou eu inventando que sei, mas nada sei. Não distinguirei uma abóbora menina de uma outra de qualquer idade. Verdade é que tenho lá abóboras, e ainda as hei mostrar em fotografia, para ver se alguém sabe mais do que este que vos escreve. E que crescidas! Se lhes der na gana, e a água abundar ao troço, galgarão o terreno, cuja área pouco tem de desprezível, e arribarão ao telhado do alpendre vizinho, para aí chocar abóboras como bolas de Nivea - aquelas antigas que dantes anunciavam as praias. 
onion
Cebola
Deixemo-nos de prosa desperdiçada. Preparei terreno para sementeira, dizia eu. E planeava eu explicar como o fiz. Parece-me, todavia, o assunto tão pouco assuntável que o direi em duas penadas. O terreno onde planeio semear nabiças é a porção de terra até agora pertença das alfaces, que cresceram e abandonaram a terra. Não que o tivessem feito pelo próprio pé, porque pé de alface, que se saiba, não caminha. Outros pés e outras mãos trataram de as levar para um prato, onde o sal e o azeite, porventura um pouco de orégão, as compuseram a jeito de comer, e por breves instantes habitaram a barriga das pessoas.
feijão verde bebé
Feijão verde bebé
coração couve
Couve coração
A primeira coisa que fiz foi cavar o terreno. Mas cavar com convicção, não é como quem faz cócegas na barriga de alguém. Cavei com uma daquelas enxadas mais pesadas, para que a lâmina ferisse bem a terra. Felizmente, a terra ainda está mansa, mantém humidade e leveza e não se tornou um trabalho tão doloroso como o que esperava. Depois de ter cavado e revirado a terra, passei o ancinho para apanhar toda e qualquer erva, não fosse a malandra voltar a enraizar-se. Numa sementeira é imprescindível cavar a terra. Deste modo, torna-se macia e acolhe amavelmente a semente. Provavelmente, também misturarei um pouco de composto, para que fique mais enriquecida, mas nem lhe vejo grande necessidades disto, porque a terra ainda está rica; afinal, as alfaces não foram assim tão gulosas de nutrientes. Ainda tratarei de sinalizar por meio de estacas e cordas o canteiro, não vá algum pé incauto estragar a obra. Depois disso, espalharei a semente e protegê-la-ei do sol forte com a ajuda de fetos. Regarei com muito jeitinho e esperarei que a semente germine e se mostre ao mundo como é esperado que se mostre. Nunca semeei nada por ali e temo que terei grande problemas com as ervas daninhas, que recebam e crescem de uma forma que nunca vi em lado nenhum. Se tudo correr bem, o inverno trará deliciosas nabiças. A jornada é longa. Comprei as sementes de nabiças no Continente e custaram 99 cêntimos. Nada caras, portanto. São fáceis de encontrar, basta ir àquele cantinho das flores e da jardinagem.
pimento verde
Pimento jovem
Explicava eu lá atrás que também sachei e arranquei ervas com as mãos. As ervas daninhas e invasoras têm sido uma brutal dor de cabeça. Se me distraio um pouco, engolem as curgetes e os tomates num abrir e fechar de olhos, e tudo se transforma num temível matagal, propício para que raposas e coelhos as habitem. Agora já estou a exagerar.
morango selvagem
Morango silvestre
pimento padrão
Pimentos padron 
As curgetes apresentam já uma produção interessante (4 pés de curgetes produzem cerca de 10 curgetes por semana). O tomateiro cereja, o único que tenho, mostra-se carregadinho de tomates. Os tomateiros coração de boi vão trepando pelas cordas e pelas estacas, espalhando cachos de tomates que ameaçam avermelhar-se esplendorosamente quando agosto chegar. Os pimenteiros mostram-se generosos e em breve oferecerão pimentos. As beterrabas estão prontas a apanhar, e é o que vou fazendo. Couve penca há imensa, embora continue a ser brutalmente atacada por tudo o que é bicharada. Os pepineiros estão grávidos de pepinos. O feijoal parece uma infantário de feijão verde bebé. As cebolas estarão para breve. Enfim, a horta de julho e de agosto. E que bem sabe o fruto que cultivamos!
barba de milho
Barba de milho




4 comentários:

  1. Olá
    Bela prosa ilustrada com excelentes imagens...
    É isso, como diz o Povo, «Quem anda por gosto não cansa...»

    Cumprs
    Augusto

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  2. Obrigado. É prosa hortícola, :)

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