Para acabar de vez com os mitos; ou: quando Roland Barthes visitou a minha horta

Matemos o primeiro mito. Que eu saiba, Roland Barthes não visitou a minha horta ou sequer saberá que existe. Ademais, Roland Barthes faleceu em 1980 e nesse ano  ainda não existia horta e tão pouco fora planeada - logo, mesmo que Roland Barthes tivesse o dom inesperado de visitar espaços planeados e não concretizados nunca a teria visitado. E pergunto: o que traria Roland Barthes à minha horta? Talvez apreciasse uns pimentinhos ou uma saladinha de tomate enquanto escrevia ou pensava sobre o que aproxima e o que afasta o significado e o significante; talvez suspirasse por ares campesinos e encontrasse prazer olhando o crescimento da curgetes num dos intervalos arrufados com o complicado Ferdinand de Saussure - outro que não visitou nem visitará a minha horta. Mesmo não acreditando que Roland Barthes afatasse o olhar da vendedora da loja de roupa, Françoise, Fefe para os amigos, Fe para o amante argelino, enquanto beberica um café numa esplanada da Rue de l'Ancien Quai, Cherbourg, França, para ouvir falar na poda dos tomates, ou nas estacas dos pepineiros, ou nas malditas pragas da horta, podemos ficcionar a chegada de Barthes à horta. Chega num imenso carro preto conduzido por um albino de nome Cortez, um espanhol fugido ao franquismo, vestindo preto como um morcego mal acordado. Abre a porta do carro, inclina a cabeça para fora, de seguida o tronco, assenta um pé gordo no chão e depois o outro. Olha para o céu gigante de Gaia e sussurra como falando para dentro: "Vamos a isto!" Abro-lhe o portão de ferro, convido-o a entrar e abro caminho. Peço imensa desculpa pelos fios do estendal da roupa, explico que não tive tempo de os retirar e que fiquei muito surpreendido com a chegada do grande mitologista à pobre e magrinha horta. Cortez segue Barthes com o olhar e com os gestos. Junto do enorme bidão azul da água anuncio: "Esta é a minha horta." "Cortez, passa-me o caderno e o lápis, e arranja-me uma cadeirinha de madeira, esta gota mata-me." Cortez afasta-se, ouço-o abrir a bagageira do carro. Volta. Traz uma cadeira dobrada. Monta-a e ajuda Roland Barthes a sentar-se. Barthes limita-se a olhar profundamente cada planta, cada grão de terra, cada decline, cada daninha; não diz palavra audível. Atrevo-me a oferecer um copinho de água, Barthes ignora-me e começa a escrever. E escreve imenso. Escreve com velocidade. De vez em quando olha para a horta, afina o olhar e rabisca pequenos desenhos; no meio do texto, nos cantos das folhas. Num desses desenhos reconheço uma curgete. Mais nada. Cortez afasta-se e urina a um canto. E Barthes escreve. Pergunto se está tudo bem, se precisa de alguma coisa, mas Barthes limita-se a escrever e a rabiscar. O sol vai alto, mas uma neblina fina e fria entra pelos pulmões dentro e arrefece o corpo. 20 minutos depois, Barthes fecha o livro, olha pela última vez a terra mansa e levanta-se. Cortez aproxima-se e dobra a cadeira, enfiando-a debaixo do braço esquerdo. Barthes inclina o corpo para trás como que recuperando o movimentos dos rins e vira costas à horta. Baixa-se para passar debaixo dos fios do estendal da roupa. Atravessa o portão de ferro. Cortez abre-lhe a porta do carro. Debruça-se para entrar. Acompanho-o, espero uma decisão, uma análise, uma palavra, um resultado do estudo. Barthes fecha a porta do carro sem nada dizer. Cortez encaminha-se para o lugar do condutor, acena com a cabeça, uma cicatriz escura ilumina-se com o sol. Baixa-se e desaparece nas entranhas do carro. Liga o motor. Inesperadamente, Barthes baixa o seu vidro. Olha-me duramente nos olhos, parece olhar-me para a alma, bem lá para o fundo onde guardamos os nossos segredos mais íntimos e os medos inconfessados, e declara: "A sua horta não é um mito, a sua horta é o que é". Fecha o vidro, o carro arranca, movimenta-se vagaroso como uma baleia no oceano e desaparece no final da rua.
Roland Barthes, mesmo ficcionado, tem razão: a minha horta é um desimportância, não é um mito nem deixa de o ser, é o que é. E sendo o que é não merece discussão. Ao longo das descrições que por aqui faço poderá parecer projecto imenso, poderá parecer coisa alguma. Não sei o que vai na cabeça do leitor desta horta (ou nos 2 ou 3 leitores). Resta-me, portanto, ser o mais claro que a lucidez me permite. A minha horta é um rectângulo, um tonto rectângulo, plantado por 4 tomateiros coração de boi, 2 curgetes, 2 meloas, um pepineiro, 4 tomateiros chucha, 4 pés de pimento padrão, 4 tomateiros de rama, 4 pés de pimento verde. E é tudo.  A mitologia não tem nada a ver com isto. Não há deuses na minha horta. Ou há?


6 comentários:

  1. eu acho que há
    e espero que se continuem a manifestar aqui

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    1. Eu também tenho uma leve suspeita. Leve. Nem peso tem.

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  2. Tu és orgulhoso da horta e assim é que deve ser. Portanto, és o rei da horta. O príncipe da horta. O Príncipe das Hortas, assim é que é.

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    1. Não me importava de ser o Príncipe das Hortas. Nada.

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  3. Olá
    Cada horta vale aquilo que o seu hortelão quiser.
    Um abraço


    Cumprs
    Augusto

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