Cameleira com fundo de céu novembrino

In strictu sensu, como diria quem nas latinarias em gnose abunda, esta senhora não pertence à horta. Plantada em zona nobre do terreno, goza de sol todo o ano, recebe com facilidade água nas raízes e ainda abriga uma quanta passarada barulhenta. É a árvore mais mimada das bandas. Gorda como só ela, abre displicentemente as suas pétalas brancas por alturas destas. Há quem lhe chame japoneira, eu prefiro-a cameleira; afinal, dos seus ramos brotam camélias e não japonélias ou japões, se é que este raciocínio colhe pingo de racionalidade. Não lhe fantasio uma origem asiática. Sempre as vi por aí, e não como árvore ou arbusto de olhos em bico. Havia uma cameleira junto da casa onde vivi até aos meus 6 anos. Ao contrário desta, as suas flores eram vermelhas como sangue, parecendo o manto de pétalas que a certa altura se estendia a seus pés uma funda poça de sangue. Ao contrário desta, a cameleira da minha infância crescia e dormia à sombra, num quadrado ridículo de terra e rodeada por paredes altas. Talvez fosse por causa disso que tanto sangrasse. Não esta. Esta cameleira é coquete, tonta, delirante, veste branco como devem vestir-se as virgens. Pretenciosa mademoiselle. Quando celebrar o centenário vestirá veludo e rendinhas brancas  nos punhos, no cabelo um longalvo laço, ao peito uma camélia branca como a nuvem primaveril.


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