Viúvas ao sol

Conheci uma mulher chamada Fernanda. Fernanda Triste. Vivia na soleira da sua porta, ou pelo menos nunca dela arredava pé. Tinha um cão velho chamado Ernesto. Ernesto ressonava quando dormia, e Fernanda com ele. Fernanda vestia preto. Ernesto era branco, embora sujo. Fernanda era viúva. Enviuvou aos 56 anos, morreu-lhe o homem de um ataque fulminante. Caiu para o lado e nunca mais teve levante de vontade própria. Do outro lado da rua, morava Catarina. Catarina Alegre. Pouco uso fazia do nome nas emoções. Mal saía de casa. No entanto, nas manhãs mais serenas de verão e quando o calor inchava o céu, espreitava a rua e suspirava por toda aquela luz e por todo aquele calor. Catarina vestia preto. Enviuvou aos 67 anos, morreu-lhe o homem numa mina de água por falta de ar ou por excesso de água. Tinha um gato chamado Marco. Marco era um gato mau, pouco dado aos afectos humanos. Surpreendentemente, e porque a natureza é pródiga em ironias, o gato Marco enlouquecia com um qualquer nada de açúcar. Lambia-o de olhos fechados e de seguida, tomado por coisas malucas, corria para o cimo da nespereira do quintal onde passava as horas seguintes. Fechava os olhos e sonhava com aquilo que os gatos sonham quando estão felizes. Mais abaixo, morava Amélia. Amélia Cardoso. Não era viúva. Nunca teve homem. Nunca teve namorado conhecido enquanto tal. Era meio tonta. Dizia que era viúva e não era. Não tinha animais de estimação, mas alimentava os gatos e os cães dos vizinhos. Sentava-se à soleira da porta e cantava canções de saudade. Cantava uma canção às 10:30, outra às 11.30 e outra às 14:30. Algumas vezes cantava também durante a madrugada, pelas 3:30, se José Castro ou Joaquim Martins a visitassem para agrados. Vestia preto.
Lembro-me sempre destas personagens, que um dia conheci, quando olho para as minhas beringelas. Guardam dentro do corpo seco uma dor profunda que começou na morte de alguém a quem se ligaram para sempre, ou que começou num outro evento que não sei e lhes veio na nascença. Escondem as flores por entre a folhagem escura, embaraçadas com a sua alegria e com os seus frutos. Quando resolvem finalmente crescer, tornam-se tristes e roxos, como se preparados para serem levados num caixão. Mas não dispensam o sol, usam a sua luz para amplificar a dor e a solidão. 
As minhas beringelas começaram agora o trabalho das flores. Não é fácil descobri-las, mas elas lá estão, bem escondidas, com vergonha das alegrias, como aqui nesta fotografia. Não sei o nome desta beringela. Na minha horta as plantas não têm nomes. Ou têm?

beringela flor



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