Hoje, a chuva visitou pela primeira vez a horta. Durante meses, as hortaliças e as sementes esperaram ansiosamente a chegada da água; a partir de hoje, a saudade maior será a do sol. Quero dizer, hortaliças e sementes não esperam nem anseiam. Enfim, sou eu que digo. Desde quando uma horta anseia seja o que for? Tontices. De qualquer modo, espero que uma aberta num destes dia me permita lançar sementes de rabanetes e favas à terra. Lá para Outubro, que já não tarda.
Visitantes da horta - o caracol
Ainda não tínhamos falado deles, mas horta sem caracóis não é horta. Adoram andar por lá a comer couves e folhas tenrinhas. Desde que não abusem, por mim encantado, e sobretudo desde que não comam as plantas quando elas são pequeninas. Já me trouxeram alguns dissabores. Os pepineiros nunca mais foram os mesmos desde que o caracóis os descobriram, por exemplo. É comum que venham para casa, muito escondidos na curvatura de um legume ou pendurados numa folha de nabiça. Seguem janela fora. Tenho ainda o cuidado para que caiam em lugar fofinho, mais do que isso não posso fazer. Gostam muito do tempo húmido, e agora que a chuva fala com a voz do trovão circulam a grande velocidade pela horta (sim, a metáfora da voz do trovão não saiu nada mal, mas hoje trovejou verdadeiramente, e trovejou tanto que me parecia a qualquer instante que a Princesa Verdade entraria janela dentro como na história de que a minha filha gosta tanto... tolices). Encontrei este rapaz que vos trago numa fotografia subindo contentemente a parede da casa dos avós da S.. Encontrei muitos outros, a maior parte deles na horta, mas este preencheu tão bem o ecrã que resolvi mostrá-lo.
850 gramas de feijão
Foi tudo quanto a horta produziu, a partir de cerca de 80 gramas de semente de feijão riscado rasteiro. Pelo meio, ficaram quilos e mais quilos de feijão verde. Estou muito orgulhoso. Para primeira sementeira de feijão, e num ridículo quadrado de terra, o resultado foi espantoso. Resta-me guardá-lo bem guardadinho, provavelmente na arca congeladora, porque assim não corro o risco que apanhe gorgulho e bicharada de sua parentela, e para o ano semearei novamente. Não tanto, obviamente. Conto cozinhar algum, mas nem sei o que é suposto cozinhar-se com este feijão riscado rasteiro. Algo se arranjará, se a imaginação acudir.
Setembro, vindimas
Que me perdoem os indefectíveis puristas, os imortais amantes do aroma da aromática erva, do sabor irrepetível do pimento e do tomate, da suavidade etérea da couve penca e da tristeza quase fúnebre da beringela; todavia, horta alguma, na aldeia ou na cidade, no interior ou no litoral, no norte ou no sul, ousará deixar que Setembro passe celebrar as vinhas e as vindimas. Não, do pensar não se aparta a horta, rainha entre as rainhas das agrícolas oficinas, mas nesta altura o nosso coração espanta-se com a fertilidade das terras quentes e com a generosidade da vitis vinifera.
Secando sementes de pepino à sombra
O meu apartamento é pequeno e o espaço para o exterior bastante limitado, por isso não me permito fazer algumas coisas que gostaria de fazer para a horta. Uma dessas coisas é guardar sementes de um ano para o outro, sobretudo aquelas sementes que precisam de alguma forma de processamento. Como as sementes de pepino, por exemplo. Também não o poderia deixar a acontecer na horta, porque é uma daquelas atividades minúsculas que precisam de alguma supervisão e cuidado. Além de não ter espaço no meu apartamento, secar sementes de pepino para conservar implica mosquitos, fungos e cheiros pouco agradáveis; não creio que a S. o aprovasse.
Nabiças com lagartas
Cá em casa, soaram os alarmes na passada segunda-feira. Há lagartas nas nabiças! Calculo que o alarme, de tão grandiloquente, tenha sido ouvido pela vizinhança e mais além. Mais do que dúvidas, do que uma suspeição ou subtil insinuação, a realidade entrava-nos ferozmente pelos olhos dentro e sem pedir licença. Junto às nabiças acabadas de cozer, uma lagarta transformara a visão das nabiças ferventes na sua última visão da passagem pela Terra.
As beringelas tardam mas amadurecem
Tenho vindo a descobrir umas quantas coisas sobre o cultivo das beringelas. A primeira, e talvez a mais relevante, é que não percebo absolutamente nada de beringelas. A esta ignorância não será alheio o facto de nunca ter visto como se cultivam e nem ter investigado quase nada sobre como o fazer. Claramente, cada planta terá os segredos, e a beringela terá também os seus. A primeira coisa que descobri é que a maturação da beringela é lenta. E quando digo que é lenta, acreditem, é mesmo muito lenta.
"Borda D'Água" e "O Seringador" para 2014
Graças ao nosso amigo Rui, chegou à redação d'A Horta e a Cidade o Borda d'Água e O Seringador, ambos para 2014. O Borda d'Água, pasme-se, celebra a bonita idade de 85 anos! Nascido em 1927, apresenta-se na capa, e para que não restem equívocos, como "O verdadeiro almanaque", e contém aquilo que todos nós suspeitávamos que contivesse: um reportório útil para toda a gente.
As flores da avó da S.
Se magicamente as dores lhe abandonassem o corpo, a avó da S. transformaria a sua quinta num infindável jardim colorido. As volumosas hortênsias acolheriam os visitantes, e os agapantos, brincalhões, cuidariam das crianças, brincando à apanhada e saltando à corda. Por certo, e se as dores lhe abandonassem o corpo pelo tempo suficiente, plantaria e semearia flores nas ruas e nas avenidas, e todas as casas floririam orquídeas e begónias nos beirais.
A colheita da abóbora porqueira
Como o nome indica, as simpáticas abóboras que posaram para a fotografia no murete do poço destinam-se a encher as pias dos porcos. Não podemos, em circunstância alguma, regozijar-nos com a notícia de porcos na horta. Não os há. Aliás, que eu saiba nunca os porcos navegaram por aquelas águas; quero eu dizer, a quinta dos avós da S. nunca engordou porcos.
A colheita do feijão
Coisas há tão simples que os gestos se perdem sem memória. Nesta caixinha dos gestos sem memória cabem muito dos gestos e das tarefas agrícolas. Como explicar, por exemplo, o que é colher feijões? Pequenos gestos de mãos, pequenos gestos de pés, pequenos olhares, pequenos nadas. Apanhar feijões é um gesto pequeno, como pequenos são os feijões.
Visitantes indesejados da horta #1 - Sapos e todos os outros bichos
Quando o Lopes me disse que os sapos são venenosos, ou coisa que o valha, eu desenvolvi logo uma teoria que acho infalível e que fiz questão de partilhar. Passo a explicar. Sabem a história da princesa que beija o sapo e este transforma-se num princípe? Pois bem, mais não se tratou do que uma alucinação. A mocinha pegou no sapo, logo aí tramou-se porque a pele é que tem o tal veneno (corrijam-me se estiver a asneirar, por favor), e depois ainda lhe espetou com um beijo. Foi a morte do artista, ela a partir daí já só via à frente um príncipe loiro e musculado, que fazia todas as tarefas domésticas na perfeição, e que nunca mas nunca cheirava mal nem deixava a tampa da sanita levantada. Mas terá sido mesmo um final de "Felizes para sempre"? Tenho as minhas dúvidas. A princesa acordou encharcada e confusa, horas depois, sem um sapato e com a tiara de lado, à beira do pântano, e sem o sapo. Tão certo como me chamar S.
Visitantes da horta #8 - o sapo
O sapo. Felizmente, não foi a madame S. que o encontrou na horta, caso contrário teria havido gritos tais que acionariam com violência as sirenes dos bombeiros das redondezas e mais além. É um sapo. Apenas um sapo. Há muito que não via sapos. Na horta temos um. É um exemplar juvenil e nem o acne ainda largou. Saltitava descontraído pela terra quando o surpreendi e lhe perguntei se podia fotografá-lo. Como não me respondeu, percebi no silêncio o consentimento - mesmo duvidando que o argumento se aplicasse a anfíbios.
As pencas do Natal
A couve penca é uma variedade de couve bastante conhecida e cultivada, e é absolutamente imprescindível na época natalícia, para acompanhar o bacalhau e as batatas.
Colheitas de Setembro
Aos domingos, a horta não recebe visitas, excetuando aquelas que encontram no silêncio e no descanso do hortelão motivos de festejo. Entre estas criaturas incluem-se pardais, rolas, borboletas brancas, mosquitos inomináveis (pelo menos para mim, porque não atino com o nomear de nenhum deles...), escaravelhos de várias cores e temperamentos, um ou outro sapo mais corajoso, abelhas abelhudas e gatos em pantufas, caçando passarinhos distraídos.
Gatos
Tal como em muitas outras casas do campo, na casa dos avós da S. convive saudavelmente com o sol um número apreciável de gatos. Não sei ao certo quantos são. Uns dias parecem menos, noutros dias parecem mais. A avó da S. há de sabê-lo, e um destes dias pergunto-lhe. Onde há gatos, não há ratos. E é para isso que eles andam lá.
Milho
O terreno onde cultivamos a horta é grande, e uma porção dele está por cultivar. Para além das invasoras, outras plantas crescem com toda a naturalidade, tais como milho, batatas e abóboras. A seu tempo, transplantei duas aboboreiras para os aposentos da horta para que fossem convenientemente servidas. O resultado foi excelente, e a valorosa planta, que cresceu que nunca mais parou, tem criado abóboras para umas quantas famílias.
Estou viva e venho falar de beterraba
Daqui fala a S. Não desapareci por entre as nossas culturas hortícolas nem a terra me engoliu. Nem nenhum sapo me comeu (apareceu um na horta, iaics!). A família vai aumentar e a minha não imunidade à toxoplasmose despromoveu-me de aspirante a agricultora e conferiu-me poderes de supervisora/ admiradora do trabalho do Lopes. E se ele tem feito um bom trabalho!
Tomilho
Ouvi falar pela primeira vez em tomilho (cientificamente, thymus vulgaris) quando comprei umas quantas ervas no Cantinho das Aromáticas, em Vila Nova de Gaia. Na verdade, até então pouco mais conhecia do que salsa, louro, manjericão, hortelã, orégão, e mais uma ou outra erva aromática. O Cantinho das Aromática despertou-me para a vida; ou melhor, despertou-me para a vida das ervas aromática.
Sementeiras em Setembro
Diz-se: "Em Setembro planta, colhe e cava que é mês para tudo." Enfim, não nos bastará colher o que ainda vamos tendo, como devemos plantar e ainda preparar a terra... Uma fartura. Para as sementeiras de Setembro, e a ajuizar pelo que nos diz o Borda D'Água, temos muito por onde escolher:
Semear ao ar livre e em local definitivo:
agrião, cenoura, chicória, feijão, nabo, rabanete, repolho e salsa.
Semear em canteiro:
acelga, alface, alho-porro, cebola e tomate.
Com as primeiras chuvas, plantar morangueiros e regar até que peguem. De acordo com o bonito e sempre maravilhoso guia da Casa César Santos, as sementeiras de Setembro são:
acelga, alcachofra, alface, alho-francês, beterraba, cardo, cebola, cenoura, chicória, coentros, ervilha, espinafre, fava, nabiça, nabo, pastinaga, penca, rabanete, repolho, salsa.
Semear ao ar livre e em local definitivo:
agrião, cenoura, chicória, feijão, nabo, rabanete, repolho e salsa.
Semear em canteiro:
acelga, alface, alho-porro, cebola e tomate.
Com as primeiras chuvas, plantar morangueiros e regar até que peguem. De acordo com o bonito e sempre maravilhoso guia da Casa César Santos, as sementeiras de Setembro são:
acelga, alcachofra, alface, alho-francês, beterraba, cardo, cebola, cenoura, chicória, coentros, ervilha, espinafre, fava, nabiça, nabo, pastinaga, penca, rabanete, repolho, salsa.
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Brocolos e couves penca |
A Feira de Espinho
Para quem quer encontrar sementes e plantas para a horta, e ao mesmo tempo informar-se sobre as sementeiras da época, as feiras são um bom local para começar. Tudo o que há para plantar e semear pode encontrar-se por lá. Entre as várias barraquinhas que se dedicam ao mui nobre ofício da agricultura, poderemos distinguir dois tipos de comerciantes: os verdadeiros profissionais, com tudo etiquetado a marcador verde e vermelho em papel aproveitado das caixas, e onde nada, ou quase nada, falta, e os comerciantes de pequena dimensão, que se limitam a abrir uma mesinha, estender uma toalha com um padrão de gosto duvidoso, e expor o que de melhor a terra do seu quintal germina.
O tomate-cereja
O tomate-cereja é uma espécie de tomate mais pequeno do que o habitual, e daí o seu nome. Verdade seja dita que não é tão pequeno como uma cereja, mas julgo que a ideia passa bem. É geralmente doce e muito usado em saladas. Nós usamos. E usamos muito com queijo mozarela; a combinação é muito boa. O tomate-cereja, também conhecido por tomate-cherry, foi a primeira planta que tive na horta. Aliás, antes de ter uma horta já tinha a planta, oferecida por uma amiga.
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