Os imorredoiros amores de uma beterraba

Habituei-me a olhar para a beterraba com um certo desdém, como julgo acontecer à maior parte das pessoas de bem. Afinal, para quê uma beterraba? A que vem este tubérculo vermelho? É muito comum encontrá-la plantada nos campos, ladeando a cultura principal, as batatas ou as cebolas ou o milho, como que afirmando-se a primeira linha de defesa contra coelhos. A coisa, pensava eu na minha ignorância de quem sapiente se julga das coisas do mundo agrícola, seria tão má que nem os coelhos lhe pegariam. E vai daí que, enchendo-me de ganas para a reabilitação da beterraba - julgo até que esta ideia deveria tornar-se um desígnio nacional -, revolvi comprar 6 pezinhos da amiga vermelha e plantei-os. A ver vamos o que dirão coelhos e restante animalária peluda, incluindo caracóis e lesmas. Comê-las-ão? (Isto está bem escrito?) A dona S. diz que não lhe aprecia muito o sabor, que sabe a terra e não sei mais o quê. É capaz de ter razão, porque o epicentro comestível cresce enterrado, embora tal não seja razão suficiente para explicar o sabor porque o mesmo acontece às batatas e às cebolas. Talvez a encarnada sofra de males de amor e, de tão apaixonada pela terra, a queira levar para todo o lado, incluindo o prato deste vosso escrevinhador e do descuidado leitor. Cuidemos portanto da beterraba, deixemo-la apaixonada, transpirando as saudades da longínqua terra no nosso prato. 

Post-scriptum: prometo não tornar a escrever textos sobre amores imorredoiros, como este da beterraba.

2 comentários:

  1. Eu adoro sopa de beterraba
    http://cheirar.blogspot.pt/2010/10/comida-colorida-nos-dias-cinzentos.html

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  2. Obrigado pelo sugestão, Rosa. A S. vai gostar de ideia, de certeza, até porque plantou cebolinho no cantinho das aromáticas. A sopa, acrescente-se, tem óptimo aspecto.

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