A colheita da abóbora porqueira

Como o nome indica, as simpáticas abóboras que posaram para a fotografia no murete do poço destinam-se a encher as pias dos porcos. Não podemos, em circunstância alguma, regozijar-nos com a notícia de porcos na horta. Não os há. Aliás, que eu saiba nunca os porcos navegaram por aquelas águas; quero eu dizer, a quinta dos avós da S. nunca engordou porcos.

abóbora porqueira

Ao que consta, já por lá pastou uma toura meio maluca, e persiste até aos dias de dia, sob constante ameaça, bicharada de penas e cristas vermelhas, que é como quem diz galinhas e um ou outro galo armado em chefe de obras. Portanto, na situação em apreço, melhor fora que se chamassem abóboras galinheiras e, em memória de um passado algo distante, abóboras toureiras, pois era certamente a estes animais que o petisco se destinava. Quero também com isto dizer que a existência de abóboras nos terrenos da horta é uma existência histórica, pelo menos atentando nos relatos dos mais velhos. Diz a avô da S. que as abóboras crescem espontaneamente naquelas terras, trazendo para as luzes da ribalta a teoria da geração espontânea, gerada espontaneamente por Aristóteles há mais de 2000 anos. Trata-se, com elevada margem de certeza, e a crer, repito, nos relatos dos gerontes, os únicos terrenos que praticam a teoria da geração espontânea num redor de milhares de quilómetros. Talvez seja mesmo caso único no mundo... Melhor será deixar este barbudo assunto para os teóricos e para os académicos, que este guizo não manejo com mestria. Às abóboras tornemos. Dizia lá atrás, não sei bem onde, que estas abóboras elegantemente posando são abóboras porqueiras. Transplantei-as de lugares menos favoráveis para um canto ensolarado da minha horta, e por lá cresceram como Deus quis e a água e o talento permitiram. A princípio tímidas e combalidas da mudança de terrenos, enfiaram fundo as raízes na terra fértil e correram desenfreadamente pelos campos. De quando em vez, foi necessário conduzi-las prudentemente para que não atropelassem hortaliças e legumes. Isto passou-se no início de Maio. Tenho por estes dias colhido algumas abóboras. Segundo a avó da S., podem apanhar-se a partir do momento em que começam a amarelecer, e é o que tenho feito. A avó da S., muito orgulhosa de si e das suas abóboras nascidas por obra e graça da geração espontânea, sorri muito quando lhe anuncio a captura de mais umas quantas e oferece-as contentemente aos seus filhos. Quanto a nós cá em casa, ainda ontem comemos sopa com abóbora e temos reservados alguns sacos no congelador. Podem chamar-se abóboras porqueiras, mas bem podia chamar-se abóboras humaneiras. Nós gostamos delas.

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