O meu faval

Primeiro escrevi o título e só depois olhei para ele. Parece o título de uma composição da primária: "Gosto muito do meu faval. No meu faval tenho favas. Gosto muito de comer favas. São muito boas na sopa. A minha mãe diz que as favas fazem muito bem ao organismo. A minha mãe tem sempre razão. Eu não sei de que organismo ela fala, mas se ela diz é porque tem razão. As favas são verdes e gostam muito do sol e da água. Ainda não reguei as favas porque choveu. Agora ainda são muito pequenas, mas vão crescer grandes e fortes, porque a terra é de muito boa qualidade, como diz o meu pai. O meu pai também gosta de sopa de favas. Eu e a minha mãe também gostamos de favas." 

favas

Todavia, escrito por um adulto, como julgo eu ser, este título reveste-se de qualquer coisa ensandecida. Não sei explicar muito bem. Comum, por certo, não é. Quando foi a última vez que algum de vós ouviu falar de um adulto que escreveu "o meu faval" ou que o terá dito em voz alta? Nunca. É coisa de adulto tonto. Ou, pelo menos, com uma certa incapacidade para títulos. Caso a sua mestria resplandecesse como o sol de Outono, teria preferido: "O brilho suave e telúrico do meu faval nos despojos do sol outonal". Isso sim, seria um grande título! Um título modernaço, extenso e descritivo! Quem se atreveria a adentrar em texto assim titulado sem sentir nas mãos um leve tremor, sem que o sangue aflito de tanta excitação não coroasse com um rubor pueril a face mais austera? Um título coroada como a mais coroada das cabeças europeias, digno um príncipe da Dinamarca ou de uma condessa espanhola! Quem adentraria em texto assim sem que o seu coração palpitasse como um cavalo correndo veloz à chuva, sem que os seus pés se levantassem do chão para dançar como o Fred Astaire? Pois, eu vos respondo: ninguém. Mas calhou título assim. Uma puerilidade. Uma sensaboria. Uma tristeza, enfim. Sigamos, todavia, sem que nos detenhamos por mais tempo neste infeliz começo de jorna. Este faval que ora vos apresento em imagem é o meu faval. Germinou algum tempo atrás e vai crescendo contente. Como na altura da sementeira julgo ter dado conta, são favas algarvias. O meu amigo Rui, que é muito mais experto e atento nestas coisas, disse-me assim que soube: "Nós não estamos no Algarve". Não estamos, é um facto. Queria ele dizer que fava algarvia é coisa dos Algarves e por lá se acomodará bem. Cá por cima, onde as terras são mais frias, a custo se darão. Estão habituadas aos calores, a espreguiçarem-se olhando o mar cálido e outras mimalhices que por aqui não encontram. Aqui, coitadas, olharão, com sorte, um monte a tremer de frio e uma nuvem muito arreliada porque a névoa vagarosa não a deixa espreitar as gentes. Como crescerão favas algarvias nestes rudes e gélidos modos? Rapidamente concluí que fizera coisa parva. Agora que nascidas foram, custoso será que lhes pegue e as transplante para terra mais quente, a não ser que alguma alma caridosa delas se compadeça e ofereça boleia para sul... Não vejo grande probabilidade nisso. Eu não me importaria. Afinal, se é pelo sol e pelo mar cálido que suspiram as minhas favas quem sou eu para lhes contrariar a natureza? Ninguém. De qualquer modo, e mesmo não sendo os mais ajustados aposentos, são os que de boamente lhes ofereço. Rogo para que fiquem, afinal tenho delas cuidado com todo o amor. Porém, se a oportunidade de seguirem para sul as encontrar, não direi que não. Vou sentir-lhes a falta mas por favas não choro.

7 comentários:

  1. Eu nunca pensei que fosse possível um blog literário-agrícola, mas estás sempre a surpreender-me. Sempre é melhor que o ditado que os teus pais tanto gostam de dizer, aquele das favas, Maio as trouxe, Maio as levou, que eu não acho que tenham grande razão de ser, porque comemos favas em Junho e Julho. Hoje confundi-as com línguas de gato. Isto das favas tem muito que se lhe diga.

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    1. Eu gosto desse ditado. E olha, as favas são uma espécie de línguas de gato da horta.

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  2. Continua a surpreender-me o autor deste blogue!
    Sobre favas não faltará informação na blogosfera, a maioria mais do mesmo, plágio sobre plágio. O que é dito neste blogue e a forma como é dito não tem porém paralelo.
    Voltarei.

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  3. Obrigado, Rafael. Por mim, gosto tanto de favas que dedicaria uma internet inteira às favas; terabytes e terabytes de favas; servidores e servidores pejados de informações sobre favas; um Google consagrado às favas, o Googlefava. O paraíso, enfim.

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  4. Olá
    ...e quando as favas chegarem, cuidado.
    Como tudo, «...demais é moléstia».....pela certa, digo eu. ;-)
    Cumprs
    Augusto

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  5. Muito bom! Gostei imenso. Um verdadeiro escritor agricola. Continue pois. Obrigado.
    cumprs
    José Santos

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