Os marmeleiros e os marmelos e a marmelada e a saudade que tenho disto tudo

Abaixo da casa dos meus pais, nas sebes naturais que separam os terrenos uns dos outros e os terrenos dos caminhos, era onde os marmeleiros se escondiam. Cresciam no meio das silvas e doutros arbustos menos frutíferos. Passavam um ano inteiro ignorados, esquecidos ao vento e à chuva. Chegando ao mês que diferencia o calor do frio, então celebravam-se contentamente sob a forma de um ritual qualquer que consistia em esconder marmelos furtivamente no regaço para os levar para casa. Dantes era assim. Roubavam-se marmelos. Dantes a fruta não tinha o valor que tem agora. Dantes a fruta era meio da comunidade, meio do proprietário. E não havia grandes problemas. Qualquer um sabia que a canalha roubava pêssego e laranjas... e marmelos. Nos dias que correm, já se percebeu que qualquer fruta tem um preço, e por isso roubar fruta é como que roubar dinheiro. Um exagero. Garoto que fosse garoto tinha de passar pela dura prova de roubar fruta. Mesmo que isso implicasse um tiro para o ar - no pior dos casos - ou um dono furioso empunhando um pau. Era um comportamento tribal. À séria. Tudo isso morreu. Agora os garotos roubam fruta no iPad. Abaixo da minha casa, dizia lá atrás, no início do texto, era a casa dos marmeleiros. Cresciam livremente, sem nada mais que água, sol e terra. E davam-se bem. Só percebíamos que eles estiveram lá durante aquele tempo todo quando se falava em marmelada. Falar em marmelos era falar em marmelada. Eu nunca gostei muito de marmelada. Mas sempre gostei muito da fruta em cru. Tem é de ser bem amarelinha. Meio verde, não. Aquele sabor ácido não é nada bom. Pena que os marmelos tenham perdido o interesse e tenham morrido para a nossa consciência. Ninguém lhes pega, ninguém se lembra deles.  Aliás, poucos saberão agora que aquele fruto se come e que por trás de uma boa marmelada existe sempre um bom marmelo. Enfim, não sei, não tenho a certeza, estou a escrever inventando. Verdade, verdade é que ninguém fala em comer marmelos como se fala em comer outras frutas. E outra coisa importante: as flores são comestíveis. Comam umas quantas flores de marmelo e não vão querer outra coisa. No muro que separa a horta da estrada corre um marmeleiro para o céu. É assim meio fraquinho, magro e esquálido, como todos os marmeleiros que tenho na memória. Passou a época da floração e mostra agora, todo orgulhoso, os frutos pequeninos. E é isso que vos quero mostrar hoje. Estão aqui nestas imagens. A primeira que vos mostro é apenas uma imagem meio inútil, mas como gostei do efeito do sol no muro, e isso tudo, também ficou. As segundas imagens são mais sérias. Dá para ver os pequenos marmelos. Se calhar é este ano que volto a comer marmelos. Fiquei a pensar nisso durante o tempo que escrevi e sinto saudades. 






7 comentários:

  1. E não é que agora venho à horta todos os dias!
    Obrigado pela dica....nunca comi marmelo e muito menos as flores já da marmelada a vizinha faz e oferece!

    Mas o que queria mesmo dizer é que infelizmente os miúdos agora é mais bolicaos e aos 15 já têm registo na polícia....preferia roubar fruta também.

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  2. Esqueceu-me em cima....tenho sementes de girassol para oferecer e Partilho distrito e concelho. Querem?

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  3. Ir à horta todos os dias dá saúde e faz crescer. Eu quero sementes de girassol, claro!

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  4. pois .... e email para troca de dados não encontro em lado nenhum?

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  5. Surpreendentemente: ahortaeacidade@gmail.com, :)

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  6. Marmlos e marmelada...uma bela combinação...:-)

    Sou do tempo em que se comia marmelada caseira...e que boa era.

    Marmelos em cru também já provei...e gostei.

    Cumprs
    Augusto

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    1. Não sou, portanto, espécie única. Ufa. Abraço.

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