Uma ou duas coisas sobre cenouras

Semear cenouras não é ofício que atrapalhe ninguém, seja o mais engenhoso dos especialistas ou o mais destalentoso no que a trabalhos agrícolas diz respeito. Não é novidade, portanto, anunciar ao mundo que os preparos para a sementeira das cenouras começam no alisar um pouco a terra, suavizando o que de mais duro poderá comportar as entranhas do solo, e no enriquecer a cama com algum composto fertilizante. Convém cuidar que o terreno seja relativamente leve, solarengo e rico. A cenoura agradece. Se a semente for lançado à terra nos dias embrasados, cubra-se o solo de qualquer coisa para proteger do calor e mesmo de uma ou outra ventania menos mansa. Enfim, é espalhar a semente em canteiros assim cuidados e deixar que a mãe Natureza reconheça a semente e a faça crescer. Logo a seguir a isto vêm os sarilhos. Pois que nascem outras plantas não autorizadas no canteiro, as doidas. Não sabiam ir nascer noutro local que não ali. Parvas. Pois que não sei distinguir a planta da cenoura de outras plantas, as invasoras. Pois que aquilo vai crescendo por ali acima e continuamos sem saber o que é cenoura e o que é não-cenoura. Pois que passa algum tempo e nós sempre a tentar identificar quais delas se comportam como cenouras e não percebemos de todo. Neste aspeto, os supermercados prestam um serviço de péssima qualidade: não deixam que os clientes, os compradores de cenouras, saibam com que folhas se mostra ao mundo a raiz enterrada. E alguém diz: "Ouve lá, basta ver o que mais cresce no canteiro; esse é um falso problema". E tem toda a razão. É uma falsa questão. A certa altura distingue-se a cenoura da não-cenoura. Acontece que nos acomete uma nostalgia, um aperto saudoso quando pensamos em arrancar as sementes queridas pelas nossas mãos espalhadas em favor da sobrevalorizada monda. Maldita monda, o nome abre-se cavernosamente na boca e ecoa para dentro numa repetição funérea. M-O-N-D-A. Uma espécie de anti-mundo. Não gosto de mondas. Mondar implica o extermínio mais ou menos aleatório de inumeráveis plantinhas inocentes. O extermínio das minhas cenourinhas. Não. De modos que deixei andar, apiedado dos gritos desesperados de cenourinhas pequeninas, boquinha gritando a plenos pulmões e bracinhos apontados ao colo do horticultor - eu. Por compaixão tamanha, tonta compaixão tamanha, as cenouras vieram a alongar-se ao céu, agradecendo-lhe a chuva e o sol. Cresceram para o esplendor de plantas brasonadas, julgaram-se até maiores em importância do que qualquer outra planta da horta. Cresceram, enfim, pedantes. Sim, as cenouras da minha horta cresceram pedantes. Enfim, deixemo-nos de floridos e entremos diretamente no que interessa, que isto de agricultura pouco tem de prosa: não quis arrancar as plantas que estavam a mais e aquilo tornou-se numa floresta amazónica (cenourónica, para ser mais exato).

A minha floresta de cenouras
Agora mais para o fim percebi o erro cometido: muita parra e pouca uva; ou, neste caso: muitas folhas para tão pouco de cenoura. Além deste erro, deixei que as plantas espigassem; e como espigaram a raiz começou a ganhar a consistência da madeira. Disparate atrás de disparate. Por estes dias, vou fazendo tudo ao mesmo tempo. Colho as cenouras que são de colher, mondo as cenouras que são de mondar e arranco as cenouras espigadas. Apesar destes desassisados todos consegui colher algumas, a maior parte delas pequeninas como dedos pequeninos. Saborosas. Como todas as cenouras deviam ser.

A primeira colheita de cenouras - apesar de tudo

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