Sementeiras de julho

Para estas bandas, e digo Vila Nova de Gaia, Portugal, está um calor que não se pode. Não se pode mesmo. Semear em dias assim, só mesmo ao romper do dia ou depois do sol cair. Se querem mesmo semear, arranjem um espaço fresquinho, arejado e longe do calor. A Casa César Santos, casa de sementes de Matosinhos, recomenda no seu catálogo as seguintes sementeiras para julho: agrião, aipo, alface, beterraba de mesa, brócolos, cenoura, chicória, coentros, curgete, couve-flor, couves diversas, espinafres, feijão, funcho, manjerico, milho doce, nabiça, nabo, pastinaga, penca, rabanete, repolho e salsa.

Já o famosíssimo Borda d'água recomenda: agrião, alface, beldroega (!), cenoura, feijão de trepar e anão, nabo, rabanete, repolho, salsa, couves de Bruxelas, nabo e flor (?). Recomenda ainda que se regue ao amanhecer ou ao entardecer (pudera!). Para quem tem jardim, recomenda a sementeira de amores-perfeitos, calêndulas, cinerárias... 

Enfim, a escolha é mais do que muita. Quanto a mim, já vou ficar todo contente se conseguir semear um canteiro de nabiça. Para mim, é das melhores coisas que o inverno traz.

Duas orgulhosas pencas, duas beterrabas e quatro curgetes

Porque nunca falei do assunto, pelo menos que me lembre, parece a colheita uma qualquer desimportância. Assim não é. Um momento de orgulho nasce no preciso instante em que da terra tiramos, já  maduro, o que nela plantamos. Uma comoção. Um tremor miudinho. Confesso, nunca tinha percebido a carga emocional de uma colheita. E, no meu caso, trata-te de uma pequena porção de terra, de uns pés de alface, de uns pés de couve, de uns quantos tomateiros e pouco mais. Não se trata de campos imensos, cuidados de madrugada ao anoitecer. É um nada. Uma coisa pequena. Mas a emoção está lá. E sente-se. Tenho colhido alguns frutos do trabalho. Começou por ser na forma de alface - primeiro a branca, logo depois a roxa -, e agora diversificou-se e assumiu outras formas. As colheitas de julho prometem. Nesta quarta-feira que passou, colhi duas orgulhosas pencas, duas beterrabas e quatro curgetes. Uma alegria.

curgetes beterrabas pencas
Pencas, beterrabas e curgetes

Glass-K, o substituto biológico do sulfato

De acordo com o Luís, o tal que capou os tomates, os tomateiros estariam a precisar de sulfato, para os proteger do míldio e outros que tal - e enumerou um rol de doenças dos tomateiros que eu não consigo reproduzir. "Tens de sulfatar os tomates senão isto estraga-se tudo, e é uma pena", disse-me ele, mais ou menos nestes modos. Como não sou especialista, nem para lá caminho, nas dores e no sofrimento das hortícolas, acato com solenidade toda e qualquer sugestão que enriqueça e melhore o meu trabalho, e que eu muito agradeço. De acordo com o que a memória me dita, sempre vi os tomateiros cobertos por uma tinta azul, com um cheiro muito característico - o sulfato. E lembro-me de ver o meu pai com uma máquina sinistra às costas, e que lhe emprestava um ar de personagem de ficção científica, com os seus tanques de oxigénio que serviam, simultaneamente, para respirar e para combater os malvados dos extraterrestres. Era a mítica máquina de sulfatar. Quando se falava em sulfatar lá em casa, logo um aroma característico me chegava às narinas; e já sabia: naquele fim de semana, nada de dormir até mais tarde, tudo rumava para os campos e sulfatava-se de manhã ao entardecer. Era este azulado que esperava encontrar quando fui à loja dos meus amigos da Sograpa perguntar se tinham sulfato - a pergunta é estúpida, trata-se de uma loja de produtos para a agricultura... Perguntei também se era um produto tóxico e, a ser tóxico, se haveria alternativa biológica. Recomendaram-me o Glass-K. Disseram-me que mantinha as mesmas funções do sulfato e, além disso, também favorecia a floração e a frutificação e isso tudo. Trata-se de um indutor de resistências com potássio, e isso parece-me coisa de respeito para se dizer de um produto biológico substituto do sulfato. Procurei no site que vem na embalagem e também fiquei a saber que o produto é composto por potássio e fósforo e que favorece os açúcares para o fruto... A mim parece-me coisa boa. Durante a tarde andei entretido a borrifar toda a minha horta, incluindo couves, alhos, cebolas, tomates, pepinos, curgetes e tudo o que mais por lá anda e desanda. Para minha enorme tristeza, o produto não tem aquela magnífica, e quase mítica, cor azul do sulfato. Não tem mesmo cor nenhuma. O Glass-K é incolor e ninguém percebe que a horta está "sulfatada". Os produtos biológicos ainda tem muito para aprender com o produtos tradicionais, e a cor é uma delas.

Sulfato biológico
Glass-K, o substituto biológico do sulfato

Os insetos e as flores da salsa



Encontrei estes insetos vestidos com roupa marcial a esvoaçar muito contentemente nas flores pequeninas e brancas da salsa. Não lhes sei o nome.

Capar tomates

No sábado que passou, capei os tomates. Quando me foi anunciado que era uma necessidade imperiosa, julguei que seria insustentavelmente doloroso. Capar tomates revelou-se uma actividade tranquila, bem mais fácil do que esperava, embora me tivesse comovido a alma olhar para tanta e boa rama desperdiçada. O Luís, o tio da S., que me ajudou a capar os tomates, já antes o fizera ao pai e a uns quantos primos que lho haviam pedido. Julgo até que terá capado os tomates à irmã. É, portanto, um capador de tomates credenciado. E como capar tomates? O processo é bastante simples, e depois de me ter mostrado uma vez como se fazia e de me ter explicado, julguei-me capaz de me aventurar nos segredos de capar tomates. Capar tomateiros consiste em cortar todos os ramos, os chamados "ladrões", que desviam o fulgor do tomateiro, impedindo que os nutrientes cheguem aos frutos de forma a crescerem na sua máxima força. A variedade que tenho plantada é tomate coração de boi, uma variedade que cresce enorme como os corações generosos. Tenho também por lá um tomateiro cereja, mas não vi grande vantagem em capá-lo, porque os tomates são muito pequenos e livremente crescem sem que os ramos ladrões venham a perfilar-se como uma ameaça ao pequeno fruto. O Luís também me ajudou a estacar de forma mais eficiente os tomateiros. As estacas que antes enfiara na terra pareciam meninos de coro ao lado dos robustos troncos que agora figuram na horta. Resta-me estender cordas para que os tomates se segurem convenientemente. Enfim, tratar de tomates é coisa séria. Deixo uma ilustração para que se perceba o processo, pedindo desculpa pelo atrapalhado do traçado. Na ilustração, apenas o tronco é poupado, e todos os ramos secundários são capados. Poderemos ser mais perdulários e deixar até ao máximo de quatro troncos para frutificar. Não é absolutamente necessário capar os tomates, e poderemos, se assim o entendermos, deixar crescer livremente a planta. Há muita gente que assim o faz. O meu pai, por exemplo, nunca capa tomateiros, e tem bons resultados.

tomates capados
Capar tomates. A verde e a vermelho, tomates em diferentes fases da maturação; a amarelo, flores; a azul,  ramos capados.

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